1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.



1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.