27 de agosto de 2016

Foi em 2002

A primeira vez em que eu ouvi falar em Complexo do Alemão foi em 2002. Eu tinha 9 anos.
A gente estava na 3a série e no noticiário sempre passava que um jornalista tava desaparecido. O nome dele era Tim Lopes. Estávamos as vésperas da Copa do Mundo de 2002, que ia ser no Japão e Coreia do Sul e os jogos seriam transmitidos de madrugada. Estávamos passando por uma epidemia de dengue no Rio, a maior até então. Eram esses os três assuntos do Jornal Nacional.
1. Tim Lopes desaparecido
2. Dengue assolando o Rio de Janeiro
3. A Copa do Mundo chegando.

A segunda vez em que o Complexo do Alemão me chamou a atenção foi em novembro de 2010. Final de novembro. Época do meu aniversário de 18 anos. Eu estava prestando vestibular. Mas no telejornal só mostravam carros queimados no Rio de Janeiro. Um dos meus professores do meu colégio em Niterói disse que os pais dos seus alunos na Barra da Tijuca estavam assustados de deixar os adolescentes prestarem vestibular em provas nos bairros "perigosos". Finzinho de novembro. A cena da fuga de traficantes da Vila Cruzeiro se repetia na TV. Se repetia o tempo inteiro.

A primeira vez em que a médica Zilda Arns me chamou a atenção foi em janeiro de 2010. Sim, quando ela morreu. Eu já tinha visto Zilda Arns na TV algumas vezes, sabia que ela era a "senhorinha da Pastoral da Criança", aquela instituição cuja propaganda pesava as crianças em balanças que pareciam umas fradas-balanço. Mas eu nunca tinha prestado muita atenção. Foi quando Zilda Arns, pediatra, morreu no terremoto que destruiu o Haiti em 2010, que eu prestei mais atenção naquela mulher.

No começo do ano passado, eu estava no meu quarto da casa da família Mejía, no bairro simples de Independencia, em Lima, capital do Peru quando me falaram que alguém fez uma lista não oficial dos aprovados no concurso de estágio remunerado da prefeitura do Rio e eu estaria aprovada. Só pensava no quanto aqueles 550,00 seriam bem vindos pra pagar as prestações dos vôos da Tam que me levaram a meu intercambio.
E foi pensando apenas no dinheiro, sim, no dinheiro mesmo, que dois meses depois eu estava na lotação dos estagiários numa sala grande e quente da Unigranrio da Lapa.
Eu só queria uma clínica de fácil acesso da república pra onde eu tinha acabado de me mudar, dividindo a casa com mais 7 meninas, na Cidade Universitária. Eu tinha acabado de sair de casa e tinha que me virar no máximo de estágios e monitorias para pagar minhas despesas.
As clínicas que eu conhecia foram se esgotando e não sobrava mais vaga pra mim.

Uma colega de turma, a Thaís, me passou a lista de preferencias dela. Super antenada em medicina de família e comunidade, Thaís foi me explicando os pontos positivos e negativos de cada clínica. Thaís escolheu a clínica dela, na Ilha do Governador. Eu fiquei com a lista dela, esperando ser chamada para escolher. Da lista de Thaís só restava uma clínica na minha vez. A Clínica da Família Zilda Arns, no Complexo do Alemão.
A clínica que tinha o nome da senhorinha da Pastoral. Que ficava onde mataram o tal do Tim Lopes.

Na CFZA eu me tornei outra Luma. Se eu fui pra lá contando com 550,00 de bolsa, lá eu recebi coisas que nenhum dinheiro do mundo pagaria. Trabalhei com profissionais maravilhosos. Os funcionarios da limpeza, os funcionários da administração, os enfermeiros, os dentistas, os médicos, os agentes de saúde, os tecnicos, até o pessoal da informatica que vinha consertar o computador quando dava ruim.

Eu não cresci e surgi como médica. Eu cresci como gente. A CFZA mudou a minha vida como um todo. Porque uma coisa é você ser pobre. Outra coisa é você ser pobre, favelado, vítima de violência, marginalizado mesmo. Porque o Complexo tá cheio de gente que faz das tripas o coração pra viver melhor e não consegue.

Na entrada da Clínica existe uma placa atualizada mensalmente sobre as estatisticas da população atendida. 37,6% dos adultos são analfabetos. 37,6%. 37,6% dos maiores de 15 anos são analfabetos. Em pleno Rio de Janeiro. Em 2016.
A coisa é muito séria, galera É séria pra caramba.

Há alguns meses eu tomei a decisão de sair de lá, após 1 ano e meio de estágio. Um lugar onde eu trabalharia até de graça. Um lugar onde eu pensava em passar o resto da vida. A violência crescente dos últimos meses (porque se você acha que não teve terrorismo nas olimpiadas tá desinformado, teve muito e tá tendo ainda -  a diferença é que ele não é praticado pelo Estado Islamico) me sufocou de um modo que não deu mais.
Depois que vivenciei um tiroteio e ouvi tiros do meu ladinho, que eu me joguei no chão e que vi escorrer sangue de gente inocente, que só tava passando na rua, minha vida mudou.
Eu virei um dos meus pacientes. Eu sentia tanto medo quanto eles. E cada vez que eu ouço as histórias, tão frequentes, de violencia, eu vivencio de novo. Essa semana, troquei meu campus de estágio. Com um aperto no coração que não dá pra explicar. Mas eu preciso tentar cuidar de mim.

Mas o que a CFZA fez comigo tá comigo em tudo o que eu faço. A atitude da Ariadne, as good vibes do João Pedro e da Luiza, as brincadeiras da Betina, as trocas de olhares e telepatia com a Tainá, a Mari Eccard e a Cíntia, as histórias de chorar de rir da Kássia, a sensibilidade da Lia, a vontade de ensinar do Roberto, do Eji e do Humberto, o cuidado com os pacientes do Hugo, a elegância da Mari Zau, as mordeduras de cão dos pacientes do Ricardo, Os almoços na laje, os cafés na padaria, os biscoitos feitos pela esposa do seu Jailton. São coisas que faz de mim a Luma que sou. As histórias de fibra e abraços calorosos de pessoas incriveis, como a Cris e a Cristina, a admiração pela inteligencia da Helena(que com 10 anos tem que saber tudo de todas as doenças, porque vai ser médica quando crescer e médico tem que saber de tudo), os sonhos do Lucas, a disposição da Lene. O bom humor dos profissionais da educação física. Aprender a ler os textos super bem feitos pelos meninos da Voz da Comunidade. Cara, vocês mudaram a minha vida.

Vocês mudaram de um jeito que não dá pra explicar.

Não sei como que faz pra agradecer tudo a todo mundo, mas foi tudo cheio de muita emoção. Cheio de risos, choros, alegrias tristezas, surpresas boas e ruins. Foi tudo cheio de muita emoção.
Tudo o que eu vivi ali, naquela clínica que tem o nome da "senhorinha pediatra da Pastoral" e que fica perto do colégio que tem o nome do "jornalista que foi assassinado", foi de uma intensidade indescritivel.
Deus foi muito generoso comigo de me proporcionar tê-los na minha vida.

lista de escolhas da Thais em março de 2015, que me levou a tomar uma das melhores decisões da minha vida, e que eu guardei de recordação.




12 de agosto de 2016

Frases dos ultimos dias

- A senhora toma algum remédio todo dia?
- Tomo rivotril e escitalopram.
- Desde quando?
- Ah, já tem uns 5 anos. Desde que meu marido começou a beber. Ele fica agressivo.
- Ele já bateu em você?
- Uma vez, aí eu chamei a policia e ele disse que não ia bater mais. Mas já colocou fogo nas minhas roupas, quebrou minha geladeira, jogou a nossa TV fora.

- A senhora anda muito ansiosa?
- E tem como não ficar? Entraram na minha cassa para trocar tiros da laje. Mas pelo menos dessa vez eles pediram. Na ultima vez nem isso, foram entrando.

- O senhor se considera nervoso?
- Um pouco, mas agora tô mais. É muito tiro, doutora, é muito tiro. Nem saio mais de casa.

- A senhora tem diabetes. Tem que comer pouco açúcar, pouca massa, pouco pão...
- Pão não to comendo direito. Teve tanto tiroteio essa semana que fiquei uma semana sem sair de casa, tava com medo de ir na padaria comprar pão. Comi o que já tinha no armário.

- Doutora, tenho que subir logo, antes que comecem os tiros.
- Tá muito ruim lá, né?
- Nossa, muita coisa. Muito pior do que já foi. Eu quero fechar minha janela, mas não posso, porque senão vão vir implicar comigo o porquê de estar fechando a janela. Mas eu fico preocupada, porque eu sei que ficam olhando minha irmã de 13 anos. Não deixo mais ela sair sozinha pra lugar nenhum,

- Você tem outros filhos além do neném que está aí na barriga?
- Tenho, mas moram com o pai.
- E você, mora com quem?
- Moro sozinha. O pai desse neném foi embora.
- E você já pensou em quem vai te ajudar a cuidar do neném pra você trabalhar?
- Não sei como vai ser. Porque eu trabalho no (marca de fast food) e só ganho 700 reais. Ainda pago aluguel. E uma pessoa pra ficar com o neném é pelo menos 350.

-  Então, eu perdi 40 quilos com essa doença. O médico me falou que não tem mais tratamento pra mim, eu pareço um zumbi. Passei de 80kg pra 40kg. Encontra uma cura pra mim. Descobre uma cura. Você é tão novinha. Por favor. Eu só tenho 49 anos e minha família precisa de mim. Eu não posso morrer agora.

- O senhor já foi alguma vez na clínica da familia perto da sua casa?
- Não, lá eu tenho medo de ir. Lá tem muito tiro. Lá na clínica eu não vou não.

- Lá em Recife não era perigoso assim não. Aqui atiram na gente por qualquer coisa. Meu irmão veio me visitar e eu falei pra ele parar de carregar a bíblia pra ir pra igreja. Vai que confundem e pensam que ele tá segurando uma arma?


O coração da menina empática demais tá congesto de tanta tristeza.



30 de julho de 2016

A expessão "7 a 1" foi a melhor coisa que alguém poderia nos deixar

"mãe, e seu eu voltasse a escrever?"
"tenta, vai que te faz bem."

Então eu quis escrever, eu quis falar. Não sei por quanto tempo, não sei se alguém vai ver. Mas sabe como é, muita coisa já mudou desde 2009 (quando comecei a escrever), mas a vontade de falar não.

Enquanto atravesso a Ponte, me lembro de terem parado o teleferico ontem. Mando mensagem pro grupo da equipe no wpp. Pergunto como estão as coisas e me dizem que embora esteja perigoso no territorio, está tranquilo no entorno da unidade.
Da saída da linha amarela até a clinica sinto o clima estranho. O teleférico está parado. As pessoas nos pontos de onibus estão mais impacientes que nos outros dias. As pessoas andam mais rapido nas ruas. Tá...estranho.
Desço do onibus e vou até a clinica olhando para todos os lados. Penso onde eu me esconderia se me começasse um tiroteio. Já fiz o mapa dos lugares. A escola publica que esta com o portão aberto, a banca de jornal, a guarita do condominio e a barraca de tapioca. Ando rapido até a clínica.
Chego e encontro os agentes de saúde e a enfermeira preocupados em uma sala. Eles todos olham pra mim e falam "tadinha, ela chegou logo quando a gente tá falando disso", considerando meu historico em me assustar com tudo.
Estavam preocupados que precisavam levar remédio para uma paciente, mas estava tendo tiroteio lá perto. Ela é psiquiatrica e precisava muito do remédio.
Vou atender em outra sala. Atendo um rapaz que está com uma bala alojada nas costas. a bala está ali há cerca de dois anos e o cirurgião que o atendeu naquela epoca lhe disse que um dia seu corpo iria expulsar o projetil. E expulsou.
Vou na outra sala conversar com um dos médicos da unidade sobre outro paciente. Chego lá e a paciente que ele atende fala pra nós "Não tem como eu abaixar a pressão assim, tão apontando fuzil do lado da minha casa, moro em beco(...) Minha filha trabalha num lugar onde estão atirando direto, as paredes tão todas furadas. Ela pode ir trabalhar e não voltar."
Volto pra minha sala e a paciente que eu atendia me fala que tá com medo de voltar pra casa, devido os tiros diários que tem ocorrido. Falo pra ela ligar pra quem está em casa antes de subir.
Chamo o proximo paciente, que me fala que só quer remédio pra dor. Tento explorar sua dor, a historia dela. Ele me conta, mas diz que só quer remédio, porque ele já foi muito iludido. Foi demitido após um acidente de trabalho e foi em várias consultas particulares e fez vários exames pagos, gastou toda sua poupança tentando mostrar a deformidade que o acidente lhe causou e se encostar pelo INSS. Peço pra ele trazer tudo o que tem de exames na proxima semana, que quero ajuda-lo nisso. Ele recusa. diz que já foi muito chateado, ele só quer um remédio pra dor. Me diz que o SUS só funciona pra "quem tem sorte ou então quem conhece alguém lá dentro" Deixo a sala e converso com a melhor equipe de Saúde da Família do mundo (sim, a melhor, e ai que orgulho disso) e decidimos passar um antidepressivo com efeito analgésico e chamo meu  preceptor pra conversar com ele. O paciente finalmente é convencido de que queremos ajudá-lo. Aceita vir na proxima semana com seus exames e documentos, explicamos que ele pode fazer fisioterapia, exames e ter um parecer de especialista pelo SUS, sem pagar nada. Explicamos que ele não tem que pagar nada. Acho que agora ele vai "ter sorte".
Após mais alguns atendimentos, vou almoçar. Na copa da unidade, converso com alguns funcionarios da clinica sobre como a violencia tem me atingido e que desde que passei por um tiroteio, há pouco mais de um mês, não me sinto a mesma.  Uma funcionaria me fala que realmente eu estou diferente. Que eu falo de tudo com medo. Uma agente de saúde do meu lado me disse que ela também já ficou assustada como eu. Me disse que ficou assustada depois que foi atingida por uma bala perdida aos 15 anos, voltando de seu primeiro emprego como Jovem Aprendiz. Ela nos conta muita coisa. Sobre como a mãe dela discutiu com os policiais no hospital que ela era "trabalhadora" enquanto ela recebia o pronto atendimento dos médicos. Em seguida uma funcionaria do administrativo nos conta sobre como ela e o esposo foram assaltados e tiveram o carro levado pelos bandidos, e que tudo o que ela fazia na noite chuvosa era apertar o rosto do filho contra seu peito, para que ele não visse os assaltantes armados.
Após o almoço atendo mais alguns pacientes, e quase todos estão preocupados em voltar pra casa. Atendo um senhor de idade que me conta que não pode fazer exame de sangue dele nem da mulher. Sua esposa é debilitada e os técnicos estão evitando ir até a comunidade colher sangue, devido os tiroteios. Do mesmo modo, ele tem medo de ambos descerem e o tiroteio começar no caminho.
À noite, volto para casa e vejo o teleferico rodando outra vez.
Chego em casa, as 21h, e minha mãe me conta que na rua do trabalho de uma amiga sua um homem foi espancado até a morte as 10 horas da manhã, na frente de todo mundo. Espancado até a morte. E que ela nunca mais ia esquecer do que acabou vendo. Minha mãe me conta que fizeram vários assaltos na rua em que ela trabalha naquele mesmo dia.
Me lembro sobre como todos noticiam que os assaltos a onibus onde minha mãe mora acontecem quase que diariamente.
Ligo a TV e a notícia é clima olimpico. Clima de festa. Que o Rio de Janeiro está feliz.

Mas aqui na periferia o clima não é de Olimpíada, o clima é de Copa. O clima é de 7 a 1 todo dia.


27 de agosto de 2016

Foi em 2002

A primeira vez em que eu ouvi falar em Complexo do Alemão foi em 2002. Eu tinha 9 anos.
A gente estava na 3a série e no noticiário sempre passava que um jornalista tava desaparecido. O nome dele era Tim Lopes. Estávamos as vésperas da Copa do Mundo de 2002, que ia ser no Japão e Coreia do Sul e os jogos seriam transmitidos de madrugada. Estávamos passando por uma epidemia de dengue no Rio, a maior até então. Eram esses os três assuntos do Jornal Nacional.
1. Tim Lopes desaparecido
2. Dengue assolando o Rio de Janeiro
3. A Copa do Mundo chegando.

A segunda vez em que o Complexo do Alemão me chamou a atenção foi em novembro de 2010. Final de novembro. Época do meu aniversário de 18 anos. Eu estava prestando vestibular. Mas no telejornal só mostravam carros queimados no Rio de Janeiro. Um dos meus professores do meu colégio em Niterói disse que os pais dos seus alunos na Barra da Tijuca estavam assustados de deixar os adolescentes prestarem vestibular em provas nos bairros "perigosos". Finzinho de novembro. A cena da fuga de traficantes da Vila Cruzeiro se repetia na TV. Se repetia o tempo inteiro.

A primeira vez em que a médica Zilda Arns me chamou a atenção foi em janeiro de 2010. Sim, quando ela morreu. Eu já tinha visto Zilda Arns na TV algumas vezes, sabia que ela era a "senhorinha da Pastoral da Criança", aquela instituição cuja propaganda pesava as crianças em balanças que pareciam umas fradas-balanço. Mas eu nunca tinha prestado muita atenção. Foi quando Zilda Arns, pediatra, morreu no terremoto que destruiu o Haiti em 2010, que eu prestei mais atenção naquela mulher.

No começo do ano passado, eu estava no meu quarto da casa da família Mejía, no bairro simples de Independencia, em Lima, capital do Peru quando me falaram que alguém fez uma lista não oficial dos aprovados no concurso de estágio remunerado da prefeitura do Rio e eu estaria aprovada. Só pensava no quanto aqueles 550,00 seriam bem vindos pra pagar as prestações dos vôos da Tam que me levaram a meu intercambio.
E foi pensando apenas no dinheiro, sim, no dinheiro mesmo, que dois meses depois eu estava na lotação dos estagiários numa sala grande e quente da Unigranrio da Lapa.
Eu só queria uma clínica de fácil acesso da república pra onde eu tinha acabado de me mudar, dividindo a casa com mais 7 meninas, na Cidade Universitária. Eu tinha acabado de sair de casa e tinha que me virar no máximo de estágios e monitorias para pagar minhas despesas.
As clínicas que eu conhecia foram se esgotando e não sobrava mais vaga pra mim.

Uma colega de turma, a Thaís, me passou a lista de preferencias dela. Super antenada em medicina de família e comunidade, Thaís foi me explicando os pontos positivos e negativos de cada clínica. Thaís escolheu a clínica dela, na Ilha do Governador. Eu fiquei com a lista dela, esperando ser chamada para escolher. Da lista de Thaís só restava uma clínica na minha vez. A Clínica da Família Zilda Arns, no Complexo do Alemão.
A clínica que tinha o nome da senhorinha da Pastoral. Que ficava onde mataram o tal do Tim Lopes.

Na CFZA eu me tornei outra Luma. Se eu fui pra lá contando com 550,00 de bolsa, lá eu recebi coisas que nenhum dinheiro do mundo pagaria. Trabalhei com profissionais maravilhosos. Os funcionarios da limpeza, os funcionários da administração, os enfermeiros, os dentistas, os médicos, os agentes de saúde, os tecnicos, até o pessoal da informatica que vinha consertar o computador quando dava ruim.

Eu não cresci e surgi como médica. Eu cresci como gente. A CFZA mudou a minha vida como um todo. Porque uma coisa é você ser pobre. Outra coisa é você ser pobre, favelado, vítima de violência, marginalizado mesmo. Porque o Complexo tá cheio de gente que faz das tripas o coração pra viver melhor e não consegue.

Na entrada da Clínica existe uma placa atualizada mensalmente sobre as estatisticas da população atendida. 37,6% dos adultos são analfabetos. 37,6%. 37,6% dos maiores de 15 anos são analfabetos. Em pleno Rio de Janeiro. Em 2016.
A coisa é muito séria, galera É séria pra caramba.

Há alguns meses eu tomei a decisão de sair de lá, após 1 ano e meio de estágio. Um lugar onde eu trabalharia até de graça. Um lugar onde eu pensava em passar o resto da vida. A violência crescente dos últimos meses (porque se você acha que não teve terrorismo nas olimpiadas tá desinformado, teve muito e tá tendo ainda -  a diferença é que ele não é praticado pelo Estado Islamico) me sufocou de um modo que não deu mais.
Depois que vivenciei um tiroteio e ouvi tiros do meu ladinho, que eu me joguei no chão e que vi escorrer sangue de gente inocente, que só tava passando na rua, minha vida mudou.
Eu virei um dos meus pacientes. Eu sentia tanto medo quanto eles. E cada vez que eu ouço as histórias, tão frequentes, de violencia, eu vivencio de novo. Essa semana, troquei meu campus de estágio. Com um aperto no coração que não dá pra explicar. Mas eu preciso tentar cuidar de mim.

Mas o que a CFZA fez comigo tá comigo em tudo o que eu faço. A atitude da Ariadne, as good vibes do João Pedro e da Luiza, as brincadeiras da Betina, as trocas de olhares e telepatia com a Tainá, a Mari Eccard e a Cíntia, as histórias de chorar de rir da Kássia, a sensibilidade da Lia, a vontade de ensinar do Roberto, do Eji e do Humberto, o cuidado com os pacientes do Hugo, a elegância da Mari Zau, as mordeduras de cão dos pacientes do Ricardo, Os almoços na laje, os cafés na padaria, os biscoitos feitos pela esposa do seu Jailton. São coisas que faz de mim a Luma que sou. As histórias de fibra e abraços calorosos de pessoas incriveis, como a Cris e a Cristina, a admiração pela inteligencia da Helena(que com 10 anos tem que saber tudo de todas as doenças, porque vai ser médica quando crescer e médico tem que saber de tudo), os sonhos do Lucas, a disposição da Lene. O bom humor dos profissionais da educação física. Aprender a ler os textos super bem feitos pelos meninos da Voz da Comunidade. Cara, vocês mudaram a minha vida.

Vocês mudaram de um jeito que não dá pra explicar.

Não sei como que faz pra agradecer tudo a todo mundo, mas foi tudo cheio de muita emoção. Cheio de risos, choros, alegrias tristezas, surpresas boas e ruins. Foi tudo cheio de muita emoção.
Tudo o que eu vivi ali, naquela clínica que tem o nome da "senhorinha pediatra da Pastoral" e que fica perto do colégio que tem o nome do "jornalista que foi assassinado", foi de uma intensidade indescritivel.
Deus foi muito generoso comigo de me proporcionar tê-los na minha vida.

lista de escolhas da Thais em março de 2015, que me levou a tomar uma das melhores decisões da minha vida, e que eu guardei de recordação.




12 de agosto de 2016

Frases dos ultimos dias

- A senhora toma algum remédio todo dia?
- Tomo rivotril e escitalopram.
- Desde quando?
- Ah, já tem uns 5 anos. Desde que meu marido começou a beber. Ele fica agressivo.
- Ele já bateu em você?
- Uma vez, aí eu chamei a policia e ele disse que não ia bater mais. Mas já colocou fogo nas minhas roupas, quebrou minha geladeira, jogou a nossa TV fora.

- A senhora anda muito ansiosa?
- E tem como não ficar? Entraram na minha cassa para trocar tiros da laje. Mas pelo menos dessa vez eles pediram. Na ultima vez nem isso, foram entrando.

- O senhor se considera nervoso?
- Um pouco, mas agora tô mais. É muito tiro, doutora, é muito tiro. Nem saio mais de casa.

- A senhora tem diabetes. Tem que comer pouco açúcar, pouca massa, pouco pão...
- Pão não to comendo direito. Teve tanto tiroteio essa semana que fiquei uma semana sem sair de casa, tava com medo de ir na padaria comprar pão. Comi o que já tinha no armário.

- Doutora, tenho que subir logo, antes que comecem os tiros.
- Tá muito ruim lá, né?
- Nossa, muita coisa. Muito pior do que já foi. Eu quero fechar minha janela, mas não posso, porque senão vão vir implicar comigo o porquê de estar fechando a janela. Mas eu fico preocupada, porque eu sei que ficam olhando minha irmã de 13 anos. Não deixo mais ela sair sozinha pra lugar nenhum,

- Você tem outros filhos além do neném que está aí na barriga?
- Tenho, mas moram com o pai.
- E você, mora com quem?
- Moro sozinha. O pai desse neném foi embora.
- E você já pensou em quem vai te ajudar a cuidar do neném pra você trabalhar?
- Não sei como vai ser. Porque eu trabalho no (marca de fast food) e só ganho 700 reais. Ainda pago aluguel. E uma pessoa pra ficar com o neném é pelo menos 350.

-  Então, eu perdi 40 quilos com essa doença. O médico me falou que não tem mais tratamento pra mim, eu pareço um zumbi. Passei de 80kg pra 40kg. Encontra uma cura pra mim. Descobre uma cura. Você é tão novinha. Por favor. Eu só tenho 49 anos e minha família precisa de mim. Eu não posso morrer agora.

- O senhor já foi alguma vez na clínica da familia perto da sua casa?
- Não, lá eu tenho medo de ir. Lá tem muito tiro. Lá na clínica eu não vou não.

- Lá em Recife não era perigoso assim não. Aqui atiram na gente por qualquer coisa. Meu irmão veio me visitar e eu falei pra ele parar de carregar a bíblia pra ir pra igreja. Vai que confundem e pensam que ele tá segurando uma arma?


O coração da menina empática demais tá congesto de tanta tristeza.



30 de julho de 2016

A expessão "7 a 1" foi a melhor coisa que alguém poderia nos deixar

"mãe, e seu eu voltasse a escrever?"
"tenta, vai que te faz bem."

Então eu quis escrever, eu quis falar. Não sei por quanto tempo, não sei se alguém vai ver. Mas sabe como é, muita coisa já mudou desde 2009 (quando comecei a escrever), mas a vontade de falar não.

Enquanto atravesso a Ponte, me lembro de terem parado o teleferico ontem. Mando mensagem pro grupo da equipe no wpp. Pergunto como estão as coisas e me dizem que embora esteja perigoso no territorio, está tranquilo no entorno da unidade.
Da saída da linha amarela até a clinica sinto o clima estranho. O teleférico está parado. As pessoas nos pontos de onibus estão mais impacientes que nos outros dias. As pessoas andam mais rapido nas ruas. Tá...estranho.
Desço do onibus e vou até a clinica olhando para todos os lados. Penso onde eu me esconderia se me começasse um tiroteio. Já fiz o mapa dos lugares. A escola publica que esta com o portão aberto, a banca de jornal, a guarita do condominio e a barraca de tapioca. Ando rapido até a clínica.
Chego e encontro os agentes de saúde e a enfermeira preocupados em uma sala. Eles todos olham pra mim e falam "tadinha, ela chegou logo quando a gente tá falando disso", considerando meu historico em me assustar com tudo.
Estavam preocupados que precisavam levar remédio para uma paciente, mas estava tendo tiroteio lá perto. Ela é psiquiatrica e precisava muito do remédio.
Vou atender em outra sala. Atendo um rapaz que está com uma bala alojada nas costas. a bala está ali há cerca de dois anos e o cirurgião que o atendeu naquela epoca lhe disse que um dia seu corpo iria expulsar o projetil. E expulsou.
Vou na outra sala conversar com um dos médicos da unidade sobre outro paciente. Chego lá e a paciente que ele atende fala pra nós "Não tem como eu abaixar a pressão assim, tão apontando fuzil do lado da minha casa, moro em beco(...) Minha filha trabalha num lugar onde estão atirando direto, as paredes tão todas furadas. Ela pode ir trabalhar e não voltar."
Volto pra minha sala e a paciente que eu atendia me fala que tá com medo de voltar pra casa, devido os tiros diários que tem ocorrido. Falo pra ela ligar pra quem está em casa antes de subir.
Chamo o proximo paciente, que me fala que só quer remédio pra dor. Tento explorar sua dor, a historia dela. Ele me conta, mas diz que só quer remédio, porque ele já foi muito iludido. Foi demitido após um acidente de trabalho e foi em várias consultas particulares e fez vários exames pagos, gastou toda sua poupança tentando mostrar a deformidade que o acidente lhe causou e se encostar pelo INSS. Peço pra ele trazer tudo o que tem de exames na proxima semana, que quero ajuda-lo nisso. Ele recusa. diz que já foi muito chateado, ele só quer um remédio pra dor. Me diz que o SUS só funciona pra "quem tem sorte ou então quem conhece alguém lá dentro" Deixo a sala e converso com a melhor equipe de Saúde da Família do mundo (sim, a melhor, e ai que orgulho disso) e decidimos passar um antidepressivo com efeito analgésico e chamo meu  preceptor pra conversar com ele. O paciente finalmente é convencido de que queremos ajudá-lo. Aceita vir na proxima semana com seus exames e documentos, explicamos que ele pode fazer fisioterapia, exames e ter um parecer de especialista pelo SUS, sem pagar nada. Explicamos que ele não tem que pagar nada. Acho que agora ele vai "ter sorte".
Após mais alguns atendimentos, vou almoçar. Na copa da unidade, converso com alguns funcionarios da clinica sobre como a violencia tem me atingido e que desde que passei por um tiroteio, há pouco mais de um mês, não me sinto a mesma.  Uma funcionaria me fala que realmente eu estou diferente. Que eu falo de tudo com medo. Uma agente de saúde do meu lado me disse que ela também já ficou assustada como eu. Me disse que ficou assustada depois que foi atingida por uma bala perdida aos 15 anos, voltando de seu primeiro emprego como Jovem Aprendiz. Ela nos conta muita coisa. Sobre como a mãe dela discutiu com os policiais no hospital que ela era "trabalhadora" enquanto ela recebia o pronto atendimento dos médicos. Em seguida uma funcionaria do administrativo nos conta sobre como ela e o esposo foram assaltados e tiveram o carro levado pelos bandidos, e que tudo o que ela fazia na noite chuvosa era apertar o rosto do filho contra seu peito, para que ele não visse os assaltantes armados.
Após o almoço atendo mais alguns pacientes, e quase todos estão preocupados em voltar pra casa. Atendo um senhor de idade que me conta que não pode fazer exame de sangue dele nem da mulher. Sua esposa é debilitada e os técnicos estão evitando ir até a comunidade colher sangue, devido os tiroteios. Do mesmo modo, ele tem medo de ambos descerem e o tiroteio começar no caminho.
À noite, volto para casa e vejo o teleferico rodando outra vez.
Chego em casa, as 21h, e minha mãe me conta que na rua do trabalho de uma amiga sua um homem foi espancado até a morte as 10 horas da manhã, na frente de todo mundo. Espancado até a morte. E que ela nunca mais ia esquecer do que acabou vendo. Minha mãe me conta que fizeram vários assaltos na rua em que ela trabalha naquele mesmo dia.
Me lembro sobre como todos noticiam que os assaltos a onibus onde minha mãe mora acontecem quase que diariamente.
Ligo a TV e a notícia é clima olimpico. Clima de festa. Que o Rio de Janeiro está feliz.

Mas aqui na periferia o clima não é de Olimpíada, o clima é de Copa. O clima é de 7 a 1 todo dia.