10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.

1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.



22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."


4 de agosto de 2013

Foragido.

Aconteceu há umas três semanas.

E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.

Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".

Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.

Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui  pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai  está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.

Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."

Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."

Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.

Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.



10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.

1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.



22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."


4 de agosto de 2013

Foragido.

Aconteceu há umas três semanas.

E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.

Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".

Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.

Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui  pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai  está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.

Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."

Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."

Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.

Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.