8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.

1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.



22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."



8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.

1 de dezembro de 2013

Morrer morrendo

Quem convive comigo, sabe o quanto sou apegada a meus pacientes. Às vezes posso não transparecer, mas é meio que inevitável não ficar pensando sobre suas vidas quando estamos voltando pra casa.

Nesse 6º periodo nós ficamos acompanhando um leito de alguma enfermaria do hospital. Vemos o paciente nele internado todos os dias, colhemos sua história, o examinamos todos os dias, acompanhamos seu processo de adoecimento, diagnostico e, na maioria das vezes, cura.

É impressionante como cada paciente interfere no seu modo de ver a vida. No seu modo de lidar com ela. Mas, o mais impressionante, é quando eles mexem com o nosso processo de como ver a morte. Aprendi com todos os que passaram pelo leito 3, o meu leito, alguma coisa importante. Todos eles estão comigo todos os dias, em cada coisa que eu faço. Penso em todos todos os dias. Sei que tem gente que não vai acreditar, mas vocês não são obrigados a tal.

Quero falar já há algum tempo, sobre o sr. João(nome ficticio). João internou há algum tempo com queixa de "barriga inchada". A história dele é como a de muitos brasileiros. Começou a passar mal semanas antes, mas por não ter plano de saúde ou condições de arcar com um tratamento no setor privado, procurou a emergência publica. Com a justificativa de "o senhor não está morrendo", os hospitais de emergencia o mandavam pras UPAs, e nas UPAs João só recebia remedio pra dor. Claro que remédio pra dor não cura ninguem (a menos que seja uma doença auto-limitada, que o organismo cura sozinho), e por isso João só piorava. João acabou que foi um dia atendido por um médico, que tinha um amigo que trabalhava no hospital universitario e mandou João pra lá.

(tá, não sei exatamente os detalhes, mas foi mais ou menos assim).

João chegou ao hospital muito mal. Já tinha algumas doenças de base e no momento de admissão tinha problemas de comportamento e consciencia por problemas metabólicos, que só melhoraram alguns dias depois. Medicado para seus sintomas, começamos a investigação sobre o que ele tinha. E ao mesmo tempo em que os exames eram feitos e as hipoteses diagnosticas discutidas eu ia conhecendo melhor aquele homem de quase setenta anos. Suas histórias sobre a juventude, seu modo de encarar a vida, as coisas que mais gostava de fazer. João foi a primeira pessoa a me chamar de "dôtora".

Após alguns dias, fecharam o diagnóstico. João tinha um câncer avançado. A equipe médica pesquisou todas as possibilidades terapeuticas, mas nenhuma se encaixava em um quadro tão avançado. Opções cirurgicas e até mesmo algo paliativo, que desacelerasse o crescimento do tumor, era inviável. João ia morrer. Como todos nós vamos um dia. Mas era diferente.

Impressionante como parecia que ele aceitava melhor sua doença do que eu. Um dia ele falou "Setenta anos bem vividos tá bom. É mais ou menos o que as pessoas vivem mesmo.". E ele queria ir pra casa logo, fazer as coisas que gostava de fazer. João parecia conformado. Mas eu não estava conformada.

Não estava conformada com nosso sistema de saúde que tem inumeras falhas. João fazia sua parte, ia ao medico da clinica da familia periodicamente. João pagava seus impostos. Mas não fizeram um ultrassom de rotina nele. Se ele tivesse sido submetido ao cuidado que sua doença de base exigia nos ultimos anos, não teria chegado a esse ponto. Se seu atendimento emergencial fosse num lugar onde ele fosse investigado ao invés de receber dipirona, ele não teria chegado a esse ponto. Eu conheci João. Eu estava preocupada com proximo Natal dele. Eu sei que todos nós vamos morrer, mas por coisas bobas, João vai ter menos Natais do que ele merece.

E o que mais me incomoda é que João é só mais um. Porque todos os dias chegam pessoas a hospitais só quando estão graves demais pra serem curadas.

João foi mandado pra casa do mesmo jeito que a minha avó foi mandada pra casa 14 anos atrás, quando descobriram o câncer dela. Ele foi mandado com analgésicos do mesmo jeito que vovó. Falaram pra família dele que não poderiam fazer mais nada, do mesmo jeito que falaram com a minha família há 14 anos. João foi mandado pra casa com poucas esperanças.

Acontece que dia desses revi João. Ele estava emagrecido. Ele estava triste. Ele estava doente. Não que não estivesse antes, mas agora ele estava nitidamente doente. Quando aceitou a morte, João não planejou que fosse morrer morrendo. Sim, morrer morrendo, aos poucos. Ir dependendo das outras pessoas cada dia mais. Ir se sentindo pior e pior, e se tornar cada vez menos independente com o passar dos dias. João segurou a minha mão e falou olhando em meus olhos: "Dotôra, eu não tô bem. Antes eu tava ruim só do corpo, agora é da mente também. Eu tô mal. Eu sei que vocês não tem o que fazer. Reza por mim, dotôra, reza." Respondi que já estava rezando. E estou.

Não rezo mais por milagres, pra que as pessoas se curem. Não faço mais isso. Mas concentro minhas orações em pedir que Deus amenize o sofrimento. Porque eu conheci João e sei que esse "morrer morrendo" está lhe tirando o que ele considera sua dignidade. Rezo pra que ele tenha dignidade pra morrer. Para que Deus faça o que achar melhor.

Vocês sabem que minha imaginação é pra lá de fertil. Sempre pensei que se descobrisse que tinha alguma doença bastante ruim eu ia lutar com todas as forças até o fim pela minha vida. Mas nunca parei pra pensar o que seria de mim se eu não tivesse a chance de lutar. E João me fez pensar sobre essa possibilidade. Fiquei muito assustada. Não consigo imaginar receber uma noticia e ter que ficar sentada esperando morrer. Esperando morrer morrendo, aos poucos. É agoniante. Porque se tem um jeito bem ruim viver, seria assim.

João está em casa, com sua família. Assim como milhares de pessoas estão em casa, sem nenhuma possibilidade terapeutica. De verdade, espero que João se sinta digno. Que se sinta autônomo. Que faça o que quer. Porque todos vamos morrer um dia. Mas ninguem merece morrer morrendo.

para atualizar: João faleceu alguns dias depois desse post. Ele não passou o Natal com a familia, pelo menos não fisicamente. Mas João não estava em condições de continuar sobrevivendo. Porque viver, viver mesmo, João já não estava mais.



22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."