Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :
1. A senhora dos orgasmos
Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.
2. O ex-travesti
Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.
3 . A senhorinha da lista
Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."
22 de setembro de 2013
4 de agosto de 2013
Foragido.
Aconteceu há umas três semanas.
E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.
Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".
Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.
Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.
Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."
Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."
Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.
Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.
E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.
Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".
Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.
Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.
Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."
Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."
Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.
Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.
21 de junho de 2013
Peds
7 horas da manhã e eu dormindo no onibus. De repente um bebê começa a chorar. Chorar muito. Chorar muito alto.
"Desisto da pediatria" digo eu.
10 minutos depois o bebê (de mais ou menos uns 2 anos) para de chorar e fala: "Tá, aí vai, a mamãe, a vovó, o neném..." com aquela voz de criança fofa que está aprendendo a falar.
"Retiro o que disse sobre pediatria. Eu quero *-* "
"Desisto da pediatria" digo eu.
10 minutos depois o bebê (de mais ou menos uns 2 anos) para de chorar e fala: "Tá, aí vai, a mamãe, a vovó, o neném..." com aquela voz de criança fofa que está aprendendo a falar.
"Retiro o que disse sobre pediatria. Eu quero *-* "
8 de junho de 2013
parecia um ET
Teco: "Mãe, por que os bebês são bonitos? Nascem bonitnhos?"
Mamãe: "Não, nem todos os bebês nascem bonitos"
eu: "alguns nascem horríveis. Ficam bonitinhos depois."
Mamãe: "Teco, você por exemplo nasceu horrível. Horrível mesmo. Parecia um ET. Eu olhava pra você e pensava 'por que meu filho é tão feio?'. Mas os meses passaram e você virou um bebê lindo. Eu não sei como, mas de um ET você virou um bebê lindo."
Mamãe: "Não, nem todos os bebês nascem bonitos"
eu: "alguns nascem horríveis. Ficam bonitinhos depois."
Mamãe: "Teco, você por exemplo nasceu horrível. Horrível mesmo. Parecia um ET. Eu olhava pra você e pensava 'por que meu filho é tão feio?'. Mas os meses passaram e você virou um bebê lindo. Eu não sei como, mas de um ET você virou um bebê lindo."
2 de junho de 2013
Já escolheu?
Papai: "e aí, filha, já escolheu sua especialidade?"
"Não, pai."
Papai: "O que vc acha de cardio?"
"É dificil, é chato."
" Já pensou se vc fosse uma neurocirurgiã?"
Rio alto. "Sem chances, não tenho QI pra isso. E não tenho a menor sensibilidade com movimentos finos, fico tremendo."
"Ortopedia?"
"Pai, eu não sou marceneira. Sou fraquinha, mal consigo abrir latas. Quiçá colocar um braço no lugar."
" Pediatria, filha?" - e agora papai faz a pergunta esperando que eu responda negativamente.
"Eu gosto da pediatria. Mas o problema são os bebês, eu nunca sei o que eles estão sentindo."
E daí eu chego num impasse. Também não gosto de nefrologia, nem de pneumo. E endócrino é dificílimo, e além disso endócrino é uma especialidade feminina, daí minhas colegas de trabalho vão ser magras e elegantes, e minha autoestima vai pro chão. Em neurologia, a maioria dos meus pacientes não vai ter cura. Em reumato também. E nem me venham com a ideia de oncologia, não preciso de mais biologia celular na vida. E não quero passar o resto da vida olhando vaginas, então dispenso gineco.
Oh lord, o que eu farei da vida? Tudo bem que eu ainda tenho mais 3 anos e meio pra escolher mas eu nao quero ser igual aquelas pessoas que só decidem a profissão que querem no dia da inscrição no vestibular.
"Sabe pai, eu gosto de cirurgia plastica reparadora. Acho bonitinho consertar orelhas de abano."
"Menos filha, pra isso tem que saber muito".
"Não, pai."
Papai: "O que vc acha de cardio?"
"É dificil, é chato."
" Já pensou se vc fosse uma neurocirurgiã?"
Rio alto. "Sem chances, não tenho QI pra isso. E não tenho a menor sensibilidade com movimentos finos, fico tremendo."
"Ortopedia?"
"Pai, eu não sou marceneira. Sou fraquinha, mal consigo abrir latas. Quiçá colocar um braço no lugar."
" Pediatria, filha?" - e agora papai faz a pergunta esperando que eu responda negativamente.
"Eu gosto da pediatria. Mas o problema são os bebês, eu nunca sei o que eles estão sentindo."
E daí eu chego num impasse. Também não gosto de nefrologia, nem de pneumo. E endócrino é dificílimo, e além disso endócrino é uma especialidade feminina, daí minhas colegas de trabalho vão ser magras e elegantes, e minha autoestima vai pro chão. Em neurologia, a maioria dos meus pacientes não vai ter cura. Em reumato também. E nem me venham com a ideia de oncologia, não preciso de mais biologia celular na vida. E não quero passar o resto da vida olhando vaginas, então dispenso gineco.
Oh lord, o que eu farei da vida? Tudo bem que eu ainda tenho mais 3 anos e meio pra escolher mas eu nao quero ser igual aquelas pessoas que só decidem a profissão que querem no dia da inscrição no vestibular.
"Sabe pai, eu gosto de cirurgia plastica reparadora. Acho bonitinho consertar orelhas de abano."
"Menos filha, pra isso tem que saber muito".
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22 de setembro de 2013
Pacientes
Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :
1. A senhora dos orgasmos
Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.
2. O ex-travesti
Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.
3 . A senhorinha da lista
Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."
1. A senhora dos orgasmos
Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.
2. O ex-travesti
Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.
3 . A senhorinha da lista
Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."
4 de agosto de 2013
Foragido.
Aconteceu há umas três semanas.
E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.
Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".
Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.
Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.
Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."
Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."
Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.
Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.
E o problema todo começou depois da festa junina do trabalho de mamãe. É que cada professora ficou com uma barraca na festa junina, e mamãe resolveu escravizar todo o clã Peril-Pereira. Pois é, e estávamos às vésperas da prova de farmacologia. Mas mães são assim, exigem nosso tempo, nossa atenção, nosso carinho, nossa dedicação, nossa alma e nossa maquiagem.
Como mamãe ficou na barraca que "homenageava" o milho, ficamos o sábado todo vendendo angu e milho cozido. Eu não sabia que as pessoas gostavam tanto de angu. Eu achava que essa paixão era coisa de gente pobre que gosta de comida de roça, como eu. Mas não, realmente muita gente. E não é por nada não, mas considerando as habilidades culinárias da minha família, não duvido que estava ótimo. Porque eu não comi, já que deixei para comer depois da festinha e no fim de tudo eu estava enjoada só em pensar em angu. Se vocês ficassem 7 horas seguidas ao lado de panelas de angu e seus molhos entenderiam. Acontece que no fim das contas, papai se empolgou e comeu três pratos CHEIOS de angu. E não foi com a opção "molho saudável de carne moída", foi com a opção "molho maligno com coisinhas suínas".
Partindo do princípio que papai divide a posição de Estomago mais Sensível do Mundo comigo, não tinha como dar em outra. Ele começou a passar mal no dia seguinte, com enjoos, vomitos e muita dor abdominal. Eu falei que deveria ser uma intoxicação, que ele tinha que se hidratar e ter uma alimentação leve pra melhorar. Mas obviamente ele disse que eu estava fazendo pouco caso do mal que o assolava e foi pro hospital na terça feira de manhã, sendo diagnosticado com "nada". Na noite de terça pra quarta ele voltou ao hospital com mamãe, dizendo as dores estavam muito fortes. Papai me ligou às 5 da manhã dizendo que estava no hospital com suspeita de apendicite.
Travei: meu pai tava com apendicite e eu ali, ignorando e dizendo que ele só tinha uma intoxicação alimentar! Me senti uma das piores pessoas do universo, como se eu estivesse ignorando solenemente meu pai com um caso cirurgico de emergencia! Saí de casa correndo pro hospital e chegando lá encontrei papai no soro. Estava esperando trocar o plantão pra fazer a cirurgia. Eu fiquei um tempo com papai, deixei ele lá com mamãe, voltei em casa, falei com Teco e fui pra faculdade. Às 11hs ligo pra mamãe e ela me diz que os médicos desse plantão não acham que papai tem apendicite e que ele foi submetido a uma segunda tomografia computadorizada. Às 14h ligo pra mamãe e ela me diz que papai está indo pro centro cirurgico, que eles vão procurar a causa da irritação peritoneal que está causando a dor em papai. Ele estava indo pra uma cirurgia exploratória.
Às 17:30 ligo pra mamãe mais uma vez, quando eu já estava no onibus voltando pra casa. E tudo o que ela me diz é:
mamãe: "Seu pai fugiu do centro cirurgico".
eu: "Como assim?"
mamãe: "Ele teve uma crise nervosa no centro cirurgico e não deixou o anestesista anestesiá-lo, os dois cirurgiões tentaram convencer seu pai, mas não teve jeito. Ele assinou um termo afirmando que saiu do hospital por vontade própria e que não vai fazer cirurgia nenhuma"
eu, já desesperada: "Mãe, passa pra papai! Ele tá maluco? Ele quer morrer?"
mamãe: "Você não vai discutir com seu pai, ele está triste. Estamos indo pra casa, lá a gente conversa."
Coisas que só acontecem na minha família. Pessoas fugirem do centro cirurgico. É claro que eu fiquei em pânico, papai poderia morrer, sei lá o quê ele tinha, não é mesmo? Em casa, papai só chorava e se recusava a voltar ao hospital. Foi a noite inteira todo mundo convencendo papai a voltar ao hospital e, com muito, custo, convencemos ele a voltar ao hospital no dia seguinte. Na manhã seguinte eu acordei e encontrei papai fazendo flexões na sala. Flexões! "Papai, o senhor tá maluco?", "Não, Luma, tô ótimo, olha!"
Fomos pro hospital. O plantonista dessa vez (belo médico, por sinal) viu que papai já não tinha mais nenhuma descompressão dolorosa, viu os exames e tudo o que ele disse foi: "Senhor, seu caso não é cirurgico não! Foi só uma intoxicação alimentar."
Que alívio!Alívio porque a noite anterior havia sido terrível, com medo do que papai poderia ter. Alívio porque ele tava bem (fazendo flexões, quem diria!). Alívio porque meu diagnostico estava certo desde o começo (estudante de medicina feelings).
Alívio de papai porque não tinha ganho uma cicatriz em seu abdome atletico e ninguém tinha roubado um rim seu durante uma cirurgia.
E a partir daí foi uma melhora progressiva de modo que no sábado seguinte papai tava ótimo.
Fala sério, coisas que só acontecem na minha família.
21 de junho de 2013
Peds
7 horas da manhã e eu dormindo no onibus. De repente um bebê começa a chorar. Chorar muito. Chorar muito alto.
"Desisto da pediatria" digo eu.
10 minutos depois o bebê (de mais ou menos uns 2 anos) para de chorar e fala: "Tá, aí vai, a mamãe, a vovó, o neném..." com aquela voz de criança fofa que está aprendendo a falar.
"Retiro o que disse sobre pediatria. Eu quero *-* "
"Desisto da pediatria" digo eu.
10 minutos depois o bebê (de mais ou menos uns 2 anos) para de chorar e fala: "Tá, aí vai, a mamãe, a vovó, o neném..." com aquela voz de criança fofa que está aprendendo a falar.
"Retiro o que disse sobre pediatria. Eu quero *-* "
8 de junho de 2013
parecia um ET
Teco: "Mãe, por que os bebês são bonitos? Nascem bonitnhos?"
Mamãe: "Não, nem todos os bebês nascem bonitos"
eu: "alguns nascem horríveis. Ficam bonitinhos depois."
Mamãe: "Teco, você por exemplo nasceu horrível. Horrível mesmo. Parecia um ET. Eu olhava pra você e pensava 'por que meu filho é tão feio?'. Mas os meses passaram e você virou um bebê lindo. Eu não sei como, mas de um ET você virou um bebê lindo."
Mamãe: "Não, nem todos os bebês nascem bonitos"
eu: "alguns nascem horríveis. Ficam bonitinhos depois."
Mamãe: "Teco, você por exemplo nasceu horrível. Horrível mesmo. Parecia um ET. Eu olhava pra você e pensava 'por que meu filho é tão feio?'. Mas os meses passaram e você virou um bebê lindo. Eu não sei como, mas de um ET você virou um bebê lindo."
2 de junho de 2013
Já escolheu?
Papai: "e aí, filha, já escolheu sua especialidade?"
"Não, pai."
Papai: "O que vc acha de cardio?"
"É dificil, é chato."
" Já pensou se vc fosse uma neurocirurgiã?"
Rio alto. "Sem chances, não tenho QI pra isso. E não tenho a menor sensibilidade com movimentos finos, fico tremendo."
"Ortopedia?"
"Pai, eu não sou marceneira. Sou fraquinha, mal consigo abrir latas. Quiçá colocar um braço no lugar."
" Pediatria, filha?" - e agora papai faz a pergunta esperando que eu responda negativamente.
"Eu gosto da pediatria. Mas o problema são os bebês, eu nunca sei o que eles estão sentindo."
E daí eu chego num impasse. Também não gosto de nefrologia, nem de pneumo. E endócrino é dificílimo, e além disso endócrino é uma especialidade feminina, daí minhas colegas de trabalho vão ser magras e elegantes, e minha autoestima vai pro chão. Em neurologia, a maioria dos meus pacientes não vai ter cura. Em reumato também. E nem me venham com a ideia de oncologia, não preciso de mais biologia celular na vida. E não quero passar o resto da vida olhando vaginas, então dispenso gineco.
Oh lord, o que eu farei da vida? Tudo bem que eu ainda tenho mais 3 anos e meio pra escolher mas eu nao quero ser igual aquelas pessoas que só decidem a profissão que querem no dia da inscrição no vestibular.
"Sabe pai, eu gosto de cirurgia plastica reparadora. Acho bonitinho consertar orelhas de abano."
"Menos filha, pra isso tem que saber muito".
"Não, pai."
Papai: "O que vc acha de cardio?"
"É dificil, é chato."
" Já pensou se vc fosse uma neurocirurgiã?"
Rio alto. "Sem chances, não tenho QI pra isso. E não tenho a menor sensibilidade com movimentos finos, fico tremendo."
"Ortopedia?"
"Pai, eu não sou marceneira. Sou fraquinha, mal consigo abrir latas. Quiçá colocar um braço no lugar."
" Pediatria, filha?" - e agora papai faz a pergunta esperando que eu responda negativamente.
"Eu gosto da pediatria. Mas o problema são os bebês, eu nunca sei o que eles estão sentindo."
E daí eu chego num impasse. Também não gosto de nefrologia, nem de pneumo. E endócrino é dificílimo, e além disso endócrino é uma especialidade feminina, daí minhas colegas de trabalho vão ser magras e elegantes, e minha autoestima vai pro chão. Em neurologia, a maioria dos meus pacientes não vai ter cura. Em reumato também. E nem me venham com a ideia de oncologia, não preciso de mais biologia celular na vida. E não quero passar o resto da vida olhando vaginas, então dispenso gineco.
Oh lord, o que eu farei da vida? Tudo bem que eu ainda tenho mais 3 anos e meio pra escolher mas eu nao quero ser igual aquelas pessoas que só decidem a profissão que querem no dia da inscrição no vestibular.
"Sabe pai, eu gosto de cirurgia plastica reparadora. Acho bonitinho consertar orelhas de abano."
"Menos filha, pra isso tem que saber muito".
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