6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.

25 de junho de 2014

A sua cara

Estava numa loja de roupas com Mariane dia desses. Vi uma camisa rosa florida com mangas.
- Mari, eu sei que você vai dizer que é coisa de velha. Mas eu gostei. Vou experimentar.
- Eu realmente acho horrível. Essa estampa é mesmo coisa de velha. Mas é a sua cara, experimenta!

ah, e ficou horrorosa em mim, não comprei.

17 de junho de 2014

Tenta ser leve

Nos últimos meses tenho me sentido mais leve.
E não foram os 6 quilos que perdi DEPOIS que SAÍ da academia.
É leve na cabeça mesmo.

Chega um momento em que você percebe que está se preocupando com coisas tão bobas, mas tão bobas, que está perdendo a chance de aproveitar a melhor parte da vida. O caminho dos sonhos.

Lembre-se dos seus sonhos 10 anos atrás. Provavelmente quase nada se realizou, né? E mesmo assim você está satisfeito com o que aconteceu, estou certa? Viram? A graça é o caminho. A graça é as histórias que você fez. Daqui a 10 anos não vai fazer diferença o quê você almoçou hoje, mas as pessoas com quem você conversava durante o almoço. Não vai fazer diferença se você passou com 6,0 ou com 9,0. Vai fazer diferença sua consciência tranquila porque você fez o seu melhor. Talvez esse último exemplo não tenha nada a ver. Mas se eu fosse enumerar a quantidade de críticas que ouvi nos últimos tempos porque não estava me estressando o suficiente com a faculdade, a minha tecla enter ia ficar gasta.

Mas acontece que chega um momento em que é ridículo me estressar se isso não vai me levar a lugar nenhum. Juro, se eu voltasse alguns anos atrás teria me aborrecido bem menos. Daí, amigo leitor,  você deve estar pensando "mas meus problemas são realmente muito sérios". Bem, não duvido que sejam. Porque eu também tenho uns seríssimos. Uns são tão sérios que não tem saída. Que eu, particularmente, não vejo como EU posso resolver. Então, se eu não posso resolver, não faz sentido virar a noite acordada preocupada com isso. Mas pense: esse problema tem solução? Não? Então não temos um problema, temos uma coisa chata a ser aceita. E se tiver solução? Daí você resolve. Mas sem reclamar. Você senta, faz um café, olha pra janela e elabora a solução que você colocará em prática LOGO.

Lembre que a graça é o caminho. O caminho pra chegar nos seus sonhos. Se o caminho tá difícil, ponha graça nele. Coloque uma bala na bolsa. Procure algo que te dê prazer na jornada. Porque no dia em que você chegar lá, você vai se sentir muito mais satisfeito com o caminho em si do que com a concretização do sonho. Quer ver?

Pense em algo muito legal que aconteceu. Algo pelo qual você lutou e que você conseguiu. Qual a melhor recordação que você tem?
Vou dar um exemplo muito bobo.
Acontecimento: em 2009, quando eu passei um minuto conversando e tirando fotos com a Meg Cabot na Bienal do Livro.
Melhor recordação: ficar 4 horas numa fila cheia de gente legal, sentada no chão, falando sobre as mais diversas coisas legais no mundo. Ver as minhas amigas do outro lado do vidro dando tchau pra mim foi muito mais emocionante que o "come in" da Meg.
Viram? A melhor parte é o caminho, os detalhes, a alegria nossa com as pessoas que nos fazem bem.

Então, sabe como é, tenta ser leve. Você merece.


27 de maio de 2014

Trinta mil

ACABEI DE VER QUE CONSEGUI MAIS DE 30 MIL VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA!
Muito obrigada, mesmo!
Eu não posto quase nada quase nunca, mas vou me esforçar porque 30 mil visualizações merecem um novo post!

E sobre o quê postar? 

Pensei por alguns instantes e resolvi falar sobre o seu Tadeu*, um paciente que eu e alguns amigos tivemos no ano passado.No segundo semestre de 2013, durante o sexto periodo da faculdade, nossa turma foi organizada em grupos e cada grupo acompanhava a rotina de uma enfermaria do hospital. O meu grupo ficou em uma enfermaria masculina da clínica médica, a mesma onde João* esteve internado. Na divisão dos alunos entre os leitos, antes de conhecermos os pacientes, já houve o receio de quem ficaria com o leito 2. O paciente do leito 2 não falava e tinha seus movimentos comprometidos. Dois meninos ficaram responsáveis pelo leito 2.

O primeiro dia foi muito complicado, como eu observei do leito 3 e os meus colegas me relataram mais tarde. A comunicação parecia impossível. Ele apontava para o braço e ninguem entendia ao certo. Seu Tadeu havia sofrido um acidente vascular cerebral bastante extenso 2 meses antes. As sessões de fono e fisioterapia eram diárias.

Conforme os dias foram passando, começamos a perceber as coisas que seu Tadeu queria dizer. O modo como apontava, as expressões faciais. Entretanto, nos primeiros dias eu achava que seu Tadeu ia demorar muito tempo ainda no hospital. Muito tempo mesmo, muitos meses, talvez anos. Talvez nunca tivesse alta. E eu me sentia péssima por ser tão negativa em meus pensamentos.

Mas, graças a Deus, a força de vontade de seu Tadeu, o maravilhoso trabalho de toda a equipe que o assistia, eu estava errada. Algumas semanas depois, começaram os avanços. Seu Tadeu já sentava com apoio na cama. A notícia se espalhou pelo hospital. em todo o corredor do nono andar só se falava de sua melhora, de seu avanço. Mas nada foi tão emocionante quanto a manhã em que estávamos em outra enfermaria quando uma médica residente chegou exclamando "Seu Tadeu está falando!"

Todos corremos para o leito de seu Tadeu. Ao que a fonoaudióloga cobriu a traqueostomia, ele desatou a falar.
"O senhor sabe o seu nome?" - perguntou a professora.
E seu Tadeu respondeu seu nome completo sem pensar muito. Em seguida vieram perguntas de localização no tempo e no espaço e ele estava super consciente. Suas confusões eram insignificantes para alguém que estava internado há quase quatro meses.
Nos dias seguintes, ele recuperou alguns dos movimentos e aprendeu a cobrir a própria traqueostomia para falar. E como falava! Seu Tadeu falava de tudo. Comentava sobre sua família, discursava sobre sua neta, sua esposa, a história de sua vida e principalmente, elogiava as alunas e as médicas. Um dia virou pra mim e disse : "Você é a médica mais bonita desse hospital. Como você é bonita!". Penso para quantas alunas ele falou isso. Como ele gostava de nos elogiar. E falava dos meninos também. Certa vez virou para Diego, meu colega de turma e falou que ele era um menino muito "galante". Que quando ele ficasse bom iria viajar para Cruz das Almas com ele, e que lhe arrumaria uma namorada. Mas depois exclamou: "mas lá em Cruz das Almas vai ser mais difícil arrumar namorada, as meninas são tudo crente".

A melhora de seu Tadeu foi progressiva. E foi assim que no final de setembro de 2013 seu Tadeu recebeu alta. É claro que ele não era o mesmo de antes. Ele provavelmente não iria mais andar, e as chances de trocar a gastrostomia por alimentação via oral eram poucas. Mas como ele estava feliz. No dia de sua alta foi a primeira vez em que o vi sem as vestes do hospital, mas sim com suas vestes pessoais. Sua esposa e a tão amada neta estavam lá. Foi uma comoção geral. Todos os alunos e médicos do setor já estavam apegados a ele, assim como os enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogas.

O seu Tadeu foi muito marcante na vida de todos nós. Seu bom humor, sua disposição em melhorar, e o quanto sua melhora me fez acreditar mais que coisas antes incríveis se tornem possíveis fizeram de mim uma Luma muito melhor. Muito obrigada, Seu Tadeu.

* nome fictício

Os acidentes vasculares cerebrais (vulgos AVC, AVE, derrame etc) acometem muitas pessoas no mundo todo. Estão entre as principais causas de morte e morbidade (piora na qualidade de vida) em todo o mundo. Pacientes com hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol elevado por exemplo) e tabagistas têm maiores chances de ter um AVE qua a população em geral. Por isso, as pessoas que têm essas doenças devem mante-las sob controle, tomar os medicamentos, seguir dieta, fazer exercício.

Abaixo, alguns links do Ministério da Saúde com maiores informações sobre o assunto:
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/25130/avc-ministerio-da-saude--alerta-para-sinais-da-doenca
http://www.blog.saude.gov.br/index.php/saudeemdia/32001-identificar-sintomas-iniciais-do-avc-e-decisivo-para-o-tratamento

6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.

25 de junho de 2014

A sua cara

Estava numa loja de roupas com Mariane dia desses. Vi uma camisa rosa florida com mangas.
- Mari, eu sei que você vai dizer que é coisa de velha. Mas eu gostei. Vou experimentar.
- Eu realmente acho horrível. Essa estampa é mesmo coisa de velha. Mas é a sua cara, experimenta!

ah, e ficou horrorosa em mim, não comprei.

17 de junho de 2014

Tenta ser leve

Nos últimos meses tenho me sentido mais leve.
E não foram os 6 quilos que perdi DEPOIS que SAÍ da academia.
É leve na cabeça mesmo.

Chega um momento em que você percebe que está se preocupando com coisas tão bobas, mas tão bobas, que está perdendo a chance de aproveitar a melhor parte da vida. O caminho dos sonhos.

Lembre-se dos seus sonhos 10 anos atrás. Provavelmente quase nada se realizou, né? E mesmo assim você está satisfeito com o que aconteceu, estou certa? Viram? A graça é o caminho. A graça é as histórias que você fez. Daqui a 10 anos não vai fazer diferença o quê você almoçou hoje, mas as pessoas com quem você conversava durante o almoço. Não vai fazer diferença se você passou com 6,0 ou com 9,0. Vai fazer diferença sua consciência tranquila porque você fez o seu melhor. Talvez esse último exemplo não tenha nada a ver. Mas se eu fosse enumerar a quantidade de críticas que ouvi nos últimos tempos porque não estava me estressando o suficiente com a faculdade, a minha tecla enter ia ficar gasta.

Mas acontece que chega um momento em que é ridículo me estressar se isso não vai me levar a lugar nenhum. Juro, se eu voltasse alguns anos atrás teria me aborrecido bem menos. Daí, amigo leitor,  você deve estar pensando "mas meus problemas são realmente muito sérios". Bem, não duvido que sejam. Porque eu também tenho uns seríssimos. Uns são tão sérios que não tem saída. Que eu, particularmente, não vejo como EU posso resolver. Então, se eu não posso resolver, não faz sentido virar a noite acordada preocupada com isso. Mas pense: esse problema tem solução? Não? Então não temos um problema, temos uma coisa chata a ser aceita. E se tiver solução? Daí você resolve. Mas sem reclamar. Você senta, faz um café, olha pra janela e elabora a solução que você colocará em prática LOGO.

Lembre que a graça é o caminho. O caminho pra chegar nos seus sonhos. Se o caminho tá difícil, ponha graça nele. Coloque uma bala na bolsa. Procure algo que te dê prazer na jornada. Porque no dia em que você chegar lá, você vai se sentir muito mais satisfeito com o caminho em si do que com a concretização do sonho. Quer ver?

Pense em algo muito legal que aconteceu. Algo pelo qual você lutou e que você conseguiu. Qual a melhor recordação que você tem?
Vou dar um exemplo muito bobo.
Acontecimento: em 2009, quando eu passei um minuto conversando e tirando fotos com a Meg Cabot na Bienal do Livro.
Melhor recordação: ficar 4 horas numa fila cheia de gente legal, sentada no chão, falando sobre as mais diversas coisas legais no mundo. Ver as minhas amigas do outro lado do vidro dando tchau pra mim foi muito mais emocionante que o "come in" da Meg.
Viram? A melhor parte é o caminho, os detalhes, a alegria nossa com as pessoas que nos fazem bem.

Então, sabe como é, tenta ser leve. Você merece.


27 de maio de 2014

Trinta mil

ACABEI DE VER QUE CONSEGUI MAIS DE 30 MIL VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA!
Muito obrigada, mesmo!
Eu não posto quase nada quase nunca, mas vou me esforçar porque 30 mil visualizações merecem um novo post!

E sobre o quê postar? 

Pensei por alguns instantes e resolvi falar sobre o seu Tadeu*, um paciente que eu e alguns amigos tivemos no ano passado.No segundo semestre de 2013, durante o sexto periodo da faculdade, nossa turma foi organizada em grupos e cada grupo acompanhava a rotina de uma enfermaria do hospital. O meu grupo ficou em uma enfermaria masculina da clínica médica, a mesma onde João* esteve internado. Na divisão dos alunos entre os leitos, antes de conhecermos os pacientes, já houve o receio de quem ficaria com o leito 2. O paciente do leito 2 não falava e tinha seus movimentos comprometidos. Dois meninos ficaram responsáveis pelo leito 2.

O primeiro dia foi muito complicado, como eu observei do leito 3 e os meus colegas me relataram mais tarde. A comunicação parecia impossível. Ele apontava para o braço e ninguem entendia ao certo. Seu Tadeu havia sofrido um acidente vascular cerebral bastante extenso 2 meses antes. As sessões de fono e fisioterapia eram diárias.

Conforme os dias foram passando, começamos a perceber as coisas que seu Tadeu queria dizer. O modo como apontava, as expressões faciais. Entretanto, nos primeiros dias eu achava que seu Tadeu ia demorar muito tempo ainda no hospital. Muito tempo mesmo, muitos meses, talvez anos. Talvez nunca tivesse alta. E eu me sentia péssima por ser tão negativa em meus pensamentos.

Mas, graças a Deus, a força de vontade de seu Tadeu, o maravilhoso trabalho de toda a equipe que o assistia, eu estava errada. Algumas semanas depois, começaram os avanços. Seu Tadeu já sentava com apoio na cama. A notícia se espalhou pelo hospital. em todo o corredor do nono andar só se falava de sua melhora, de seu avanço. Mas nada foi tão emocionante quanto a manhã em que estávamos em outra enfermaria quando uma médica residente chegou exclamando "Seu Tadeu está falando!"

Todos corremos para o leito de seu Tadeu. Ao que a fonoaudióloga cobriu a traqueostomia, ele desatou a falar.
"O senhor sabe o seu nome?" - perguntou a professora.
E seu Tadeu respondeu seu nome completo sem pensar muito. Em seguida vieram perguntas de localização no tempo e no espaço e ele estava super consciente. Suas confusões eram insignificantes para alguém que estava internado há quase quatro meses.
Nos dias seguintes, ele recuperou alguns dos movimentos e aprendeu a cobrir a própria traqueostomia para falar. E como falava! Seu Tadeu falava de tudo. Comentava sobre sua família, discursava sobre sua neta, sua esposa, a história de sua vida e principalmente, elogiava as alunas e as médicas. Um dia virou pra mim e disse : "Você é a médica mais bonita desse hospital. Como você é bonita!". Penso para quantas alunas ele falou isso. Como ele gostava de nos elogiar. E falava dos meninos também. Certa vez virou para Diego, meu colega de turma e falou que ele era um menino muito "galante". Que quando ele ficasse bom iria viajar para Cruz das Almas com ele, e que lhe arrumaria uma namorada. Mas depois exclamou: "mas lá em Cruz das Almas vai ser mais difícil arrumar namorada, as meninas são tudo crente".

A melhora de seu Tadeu foi progressiva. E foi assim que no final de setembro de 2013 seu Tadeu recebeu alta. É claro que ele não era o mesmo de antes. Ele provavelmente não iria mais andar, e as chances de trocar a gastrostomia por alimentação via oral eram poucas. Mas como ele estava feliz. No dia de sua alta foi a primeira vez em que o vi sem as vestes do hospital, mas sim com suas vestes pessoais. Sua esposa e a tão amada neta estavam lá. Foi uma comoção geral. Todos os alunos e médicos do setor já estavam apegados a ele, assim como os enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogas.

O seu Tadeu foi muito marcante na vida de todos nós. Seu bom humor, sua disposição em melhorar, e o quanto sua melhora me fez acreditar mais que coisas antes incríveis se tornem possíveis fizeram de mim uma Luma muito melhor. Muito obrigada, Seu Tadeu.

* nome fictício

Os acidentes vasculares cerebrais (vulgos AVC, AVE, derrame etc) acometem muitas pessoas no mundo todo. Estão entre as principais causas de morte e morbidade (piora na qualidade de vida) em todo o mundo. Pacientes com hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol elevado por exemplo) e tabagistas têm maiores chances de ter um AVE qua a população em geral. Por isso, as pessoas que têm essas doenças devem mante-las sob controle, tomar os medicamentos, seguir dieta, fazer exercício.

Abaixo, alguns links do Ministério da Saúde com maiores informações sobre o assunto:
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/25130/avc-ministerio-da-saude--alerta-para-sinais-da-doenca
http://www.blog.saude.gov.br/index.php/saudeemdia/32001-identificar-sintomas-iniciais-do-avc-e-decisivo-para-o-tratamento