30 de julho de 2016

A expessão "7 a 1" foi a melhor coisa que alguém poderia nos deixar

"mãe, e seu eu voltasse a escrever?"
"tenta, vai que te faz bem."

Então eu quis escrever, eu quis falar. Não sei por quanto tempo, não sei se alguém vai ver. Mas sabe como é, muita coisa já mudou desde 2009 (quando comecei a escrever), mas a vontade de falar não.

Enquanto atravesso a Ponte, me lembro de terem parado o teleferico ontem. Mando mensagem pro grupo da equipe no wpp. Pergunto como estão as coisas e me dizem que embora esteja perigoso no territorio, está tranquilo no entorno da unidade.
Da saída da linha amarela até a clinica sinto o clima estranho. O teleférico está parado. As pessoas nos pontos de onibus estão mais impacientes que nos outros dias. As pessoas andam mais rapido nas ruas. Tá...estranho.
Desço do onibus e vou até a clinica olhando para todos os lados. Penso onde eu me esconderia se me começasse um tiroteio. Já fiz o mapa dos lugares. A escola publica que esta com o portão aberto, a banca de jornal, a guarita do condominio e a barraca de tapioca. Ando rapido até a clínica.
Chego e encontro os agentes de saúde e a enfermeira preocupados em uma sala. Eles todos olham pra mim e falam "tadinha, ela chegou logo quando a gente tá falando disso", considerando meu historico em me assustar com tudo.
Estavam preocupados que precisavam levar remédio para uma paciente, mas estava tendo tiroteio lá perto. Ela é psiquiatrica e precisava muito do remédio.
Vou atender em outra sala. Atendo um rapaz que está com uma bala alojada nas costas. a bala está ali há cerca de dois anos e o cirurgião que o atendeu naquela epoca lhe disse que um dia seu corpo iria expulsar o projetil. E expulsou.
Vou na outra sala conversar com um dos médicos da unidade sobre outro paciente. Chego lá e a paciente que ele atende fala pra nós "Não tem como eu abaixar a pressão assim, tão apontando fuzil do lado da minha casa, moro em beco(...) Minha filha trabalha num lugar onde estão atirando direto, as paredes tão todas furadas. Ela pode ir trabalhar e não voltar."
Volto pra minha sala e a paciente que eu atendia me fala que tá com medo de voltar pra casa, devido os tiros diários que tem ocorrido. Falo pra ela ligar pra quem está em casa antes de subir.
Chamo o proximo paciente, que me fala que só quer remédio pra dor. Tento explorar sua dor, a historia dela. Ele me conta, mas diz que só quer remédio, porque ele já foi muito iludido. Foi demitido após um acidente de trabalho e foi em várias consultas particulares e fez vários exames pagos, gastou toda sua poupança tentando mostrar a deformidade que o acidente lhe causou e se encostar pelo INSS. Peço pra ele trazer tudo o que tem de exames na proxima semana, que quero ajuda-lo nisso. Ele recusa. diz que já foi muito chateado, ele só quer um remédio pra dor. Me diz que o SUS só funciona pra "quem tem sorte ou então quem conhece alguém lá dentro" Deixo a sala e converso com a melhor equipe de Saúde da Família do mundo (sim, a melhor, e ai que orgulho disso) e decidimos passar um antidepressivo com efeito analgésico e chamo meu  preceptor pra conversar com ele. O paciente finalmente é convencido de que queremos ajudá-lo. Aceita vir na proxima semana com seus exames e documentos, explicamos que ele pode fazer fisioterapia, exames e ter um parecer de especialista pelo SUS, sem pagar nada. Explicamos que ele não tem que pagar nada. Acho que agora ele vai "ter sorte".
Após mais alguns atendimentos, vou almoçar. Na copa da unidade, converso com alguns funcionarios da clinica sobre como a violencia tem me atingido e que desde que passei por um tiroteio, há pouco mais de um mês, não me sinto a mesma.  Uma funcionaria me fala que realmente eu estou diferente. Que eu falo de tudo com medo. Uma agente de saúde do meu lado me disse que ela também já ficou assustada como eu. Me disse que ficou assustada depois que foi atingida por uma bala perdida aos 15 anos, voltando de seu primeiro emprego como Jovem Aprendiz. Ela nos conta muita coisa. Sobre como a mãe dela discutiu com os policiais no hospital que ela era "trabalhadora" enquanto ela recebia o pronto atendimento dos médicos. Em seguida uma funcionaria do administrativo nos conta sobre como ela e o esposo foram assaltados e tiveram o carro levado pelos bandidos, e que tudo o que ela fazia na noite chuvosa era apertar o rosto do filho contra seu peito, para que ele não visse os assaltantes armados.
Após o almoço atendo mais alguns pacientes, e quase todos estão preocupados em voltar pra casa. Atendo um senhor de idade que me conta que não pode fazer exame de sangue dele nem da mulher. Sua esposa é debilitada e os técnicos estão evitando ir até a comunidade colher sangue, devido os tiroteios. Do mesmo modo, ele tem medo de ambos descerem e o tiroteio começar no caminho.
À noite, volto para casa e vejo o teleferico rodando outra vez.
Chego em casa, as 21h, e minha mãe me conta que na rua do trabalho de uma amiga sua um homem foi espancado até a morte as 10 horas da manhã, na frente de todo mundo. Espancado até a morte. E que ela nunca mais ia esquecer do que acabou vendo. Minha mãe me conta que fizeram vários assaltos na rua em que ela trabalha naquele mesmo dia.
Me lembro sobre como todos noticiam que os assaltos a onibus onde minha mãe mora acontecem quase que diariamente.
Ligo a TV e a notícia é clima olimpico. Clima de festa. Que o Rio de Janeiro está feliz.

Mas aqui na periferia o clima não é de Olimpíada, o clima é de Copa. O clima é de 7 a 1 todo dia.


28 de dezembro de 2014

Pode ser que você precise de muito. Pode ser que não.

Nunca tantos objetivos foram realizados na minha vida como em 2014.
Na verdade, não lembro de nenhum outro ano em que tanta coisa tenha acontecido, pelo menos que tenha acontecido porque eu fiz com que acontecesse. Não tive nenhuma grande sorte inesperada, mas consegui fazer tudo o que eu queria e mais um pouco. Não, não tive mais dinheiro nem mais tempo livre que em 2013. Apenas tive mais vontade de parar de falar e fazer. Mais vontade de ser feliz.

É instigante essa coisa de como fazer pra ser feliz. Dia desses eu estava almoçando com o pessoal do estágio, era um domingo de sol e a gente estava num restaurante perto do hospital. A gente falava de trabalhar demais e tal. Desde que entrei na faculdade, sempre levantei a bandeira de que não devemos trabalhar demais. E ainda continuo fazendo isso. Mas é complicado das pessoas entenderem. Às vezes eu mesma me pergunto se eu não estou errada por isso.

Mas agora tenho pensado que o que faz a gente feliz é algo muito particular. Meus melhores momentos são conversando com meus amigos enquanto tomo chá gelado ou então assistindo séries com meu irmão. Nada que me custe muito dinheiro. Outro dia abri meu armário e me dei conta de que não preciso de nada. Quando passo em frente as vitrines vejo várias coisas que quero comprar. Mas lembro que não preciso de nada daquilo e volto pra casa. Creio que assim vou me adaptando ao que me faz feliz e aprendendo a administrar minha vida com pouco. Descobri que tenho outras coisas que eu preciso mais, como viajar, fazer atividade física e rir cada dia mais.

Tudo o que eu não tive em 2014 foi pressa. Me inscrevi no Ciencias Sem Fronteiras e desisti. Não pela pressa de me formar, como meus colegas sempre dizem. Mas porque o que eu quero agora é estar aqui, com as pessoas que eu gosto.

Juntei dinheiro o ano inteiro para viajar e no primeiro dia de 2015 vou sair do país pela primeira vez(na verdade, vou pegar um avião pela primeira vez, olha que pobreza!). Esse é o tipo de coisa que eu estou precisando. Não de roupa, sapato, comida de restaurante. Mas de conhecer outros lugares do mundo.

Essa vontade que me deu de viajar em 2014 só me fez bem. Na minha família nunca ninguém viaja, então imaginem como foi pro meu pai, super cabeça dura, tentar entender essa minha vontade! Graças as ideias de viajar, fiz curso de ingles, de espanhol. Não sei o que mais quero continuar aprendendo em 2015. Vou ir descobrindo.

Descobri o prazer de fazer atividade física(que me fizeram perder 6 quilos e aumentar muito minha autoestima, rs), finalmente terminei o romance que havia escrito aos 16 anos e estava sem final porque eu não tinha coragem de dar um fim (sim, em 2015 sem falta eu tomo vergonha na cara para registrar e tentar publicar), comi menos doces, e aprendi a comer um monte de legumes e frutas que não comia antes!

Para nada disso eu gastei muito tempo ou dinheiro. Em 2014 tive bem menos dinheiro que em 2015. Na verdade, esse é o objetivo desse post. Mostrar que nem todo mundo precisa de muito. Talvez, você que está lendo, precise. E está tudo bem. Mas se não precisar, vai ser melhor ainda.

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/files/2013/02/formigas.jpg

5 de novembro de 2014

Tinha um livro no meio do caminho

Estava no ponto de onibus voltando pra casa.
Um cara de mais ou menos uns 50 anos me pergunta se o 484 para ali. Eu respondo que provavelmente sim, porque um outro onibus da mesma empresa acabou de parar. Ele olha para o livro que seguro (um livro preparatório pro TOEFL - que para quem não conhece é uma prova de proeficiencia em ingles) e fala: "Do you speak english?"
" A little", respondo. Ele pergunta se vou fazer o TOEFL. Respondo que o livro era de uma amiga e que o tinha emprestado a outro colega.
Mesmo comigo falando em portugues, ele insiste em falar em ingles.
Traduzindo basicamente, ele me conta sobre uma ONG de doação mútua de livros. Quando começa a falar, chega meu onibus.
"Tenho que ir, meu onibus chegou"
"Ei, espera, toma esse livro aqui de presente pra você."
E foi assim que eu ganhei um livro no caminho para casa.


6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.

30 de julho de 2016

A expessão "7 a 1" foi a melhor coisa que alguém poderia nos deixar

"mãe, e seu eu voltasse a escrever?"
"tenta, vai que te faz bem."

Então eu quis escrever, eu quis falar. Não sei por quanto tempo, não sei se alguém vai ver. Mas sabe como é, muita coisa já mudou desde 2009 (quando comecei a escrever), mas a vontade de falar não.

Enquanto atravesso a Ponte, me lembro de terem parado o teleferico ontem. Mando mensagem pro grupo da equipe no wpp. Pergunto como estão as coisas e me dizem que embora esteja perigoso no territorio, está tranquilo no entorno da unidade.
Da saída da linha amarela até a clinica sinto o clima estranho. O teleférico está parado. As pessoas nos pontos de onibus estão mais impacientes que nos outros dias. As pessoas andam mais rapido nas ruas. Tá...estranho.
Desço do onibus e vou até a clinica olhando para todos os lados. Penso onde eu me esconderia se me começasse um tiroteio. Já fiz o mapa dos lugares. A escola publica que esta com o portão aberto, a banca de jornal, a guarita do condominio e a barraca de tapioca. Ando rapido até a clínica.
Chego e encontro os agentes de saúde e a enfermeira preocupados em uma sala. Eles todos olham pra mim e falam "tadinha, ela chegou logo quando a gente tá falando disso", considerando meu historico em me assustar com tudo.
Estavam preocupados que precisavam levar remédio para uma paciente, mas estava tendo tiroteio lá perto. Ela é psiquiatrica e precisava muito do remédio.
Vou atender em outra sala. Atendo um rapaz que está com uma bala alojada nas costas. a bala está ali há cerca de dois anos e o cirurgião que o atendeu naquela epoca lhe disse que um dia seu corpo iria expulsar o projetil. E expulsou.
Vou na outra sala conversar com um dos médicos da unidade sobre outro paciente. Chego lá e a paciente que ele atende fala pra nós "Não tem como eu abaixar a pressão assim, tão apontando fuzil do lado da minha casa, moro em beco(...) Minha filha trabalha num lugar onde estão atirando direto, as paredes tão todas furadas. Ela pode ir trabalhar e não voltar."
Volto pra minha sala e a paciente que eu atendia me fala que tá com medo de voltar pra casa, devido os tiros diários que tem ocorrido. Falo pra ela ligar pra quem está em casa antes de subir.
Chamo o proximo paciente, que me fala que só quer remédio pra dor. Tento explorar sua dor, a historia dela. Ele me conta, mas diz que só quer remédio, porque ele já foi muito iludido. Foi demitido após um acidente de trabalho e foi em várias consultas particulares e fez vários exames pagos, gastou toda sua poupança tentando mostrar a deformidade que o acidente lhe causou e se encostar pelo INSS. Peço pra ele trazer tudo o que tem de exames na proxima semana, que quero ajuda-lo nisso. Ele recusa. diz que já foi muito chateado, ele só quer um remédio pra dor. Me diz que o SUS só funciona pra "quem tem sorte ou então quem conhece alguém lá dentro" Deixo a sala e converso com a melhor equipe de Saúde da Família do mundo (sim, a melhor, e ai que orgulho disso) e decidimos passar um antidepressivo com efeito analgésico e chamo meu  preceptor pra conversar com ele. O paciente finalmente é convencido de que queremos ajudá-lo. Aceita vir na proxima semana com seus exames e documentos, explicamos que ele pode fazer fisioterapia, exames e ter um parecer de especialista pelo SUS, sem pagar nada. Explicamos que ele não tem que pagar nada. Acho que agora ele vai "ter sorte".
Após mais alguns atendimentos, vou almoçar. Na copa da unidade, converso com alguns funcionarios da clinica sobre como a violencia tem me atingido e que desde que passei por um tiroteio, há pouco mais de um mês, não me sinto a mesma.  Uma funcionaria me fala que realmente eu estou diferente. Que eu falo de tudo com medo. Uma agente de saúde do meu lado me disse que ela também já ficou assustada como eu. Me disse que ficou assustada depois que foi atingida por uma bala perdida aos 15 anos, voltando de seu primeiro emprego como Jovem Aprendiz. Ela nos conta muita coisa. Sobre como a mãe dela discutiu com os policiais no hospital que ela era "trabalhadora" enquanto ela recebia o pronto atendimento dos médicos. Em seguida uma funcionaria do administrativo nos conta sobre como ela e o esposo foram assaltados e tiveram o carro levado pelos bandidos, e que tudo o que ela fazia na noite chuvosa era apertar o rosto do filho contra seu peito, para que ele não visse os assaltantes armados.
Após o almoço atendo mais alguns pacientes, e quase todos estão preocupados em voltar pra casa. Atendo um senhor de idade que me conta que não pode fazer exame de sangue dele nem da mulher. Sua esposa é debilitada e os técnicos estão evitando ir até a comunidade colher sangue, devido os tiroteios. Do mesmo modo, ele tem medo de ambos descerem e o tiroteio começar no caminho.
À noite, volto para casa e vejo o teleferico rodando outra vez.
Chego em casa, as 21h, e minha mãe me conta que na rua do trabalho de uma amiga sua um homem foi espancado até a morte as 10 horas da manhã, na frente de todo mundo. Espancado até a morte. E que ela nunca mais ia esquecer do que acabou vendo. Minha mãe me conta que fizeram vários assaltos na rua em que ela trabalha naquele mesmo dia.
Me lembro sobre como todos noticiam que os assaltos a onibus onde minha mãe mora acontecem quase que diariamente.
Ligo a TV e a notícia é clima olimpico. Clima de festa. Que o Rio de Janeiro está feliz.

Mas aqui na periferia o clima não é de Olimpíada, o clima é de Copa. O clima é de 7 a 1 todo dia.


28 de dezembro de 2014

Pode ser que você precise de muito. Pode ser que não.

Nunca tantos objetivos foram realizados na minha vida como em 2014.
Na verdade, não lembro de nenhum outro ano em que tanta coisa tenha acontecido, pelo menos que tenha acontecido porque eu fiz com que acontecesse. Não tive nenhuma grande sorte inesperada, mas consegui fazer tudo o que eu queria e mais um pouco. Não, não tive mais dinheiro nem mais tempo livre que em 2013. Apenas tive mais vontade de parar de falar e fazer. Mais vontade de ser feliz.

É instigante essa coisa de como fazer pra ser feliz. Dia desses eu estava almoçando com o pessoal do estágio, era um domingo de sol e a gente estava num restaurante perto do hospital. A gente falava de trabalhar demais e tal. Desde que entrei na faculdade, sempre levantei a bandeira de que não devemos trabalhar demais. E ainda continuo fazendo isso. Mas é complicado das pessoas entenderem. Às vezes eu mesma me pergunto se eu não estou errada por isso.

Mas agora tenho pensado que o que faz a gente feliz é algo muito particular. Meus melhores momentos são conversando com meus amigos enquanto tomo chá gelado ou então assistindo séries com meu irmão. Nada que me custe muito dinheiro. Outro dia abri meu armário e me dei conta de que não preciso de nada. Quando passo em frente as vitrines vejo várias coisas que quero comprar. Mas lembro que não preciso de nada daquilo e volto pra casa. Creio que assim vou me adaptando ao que me faz feliz e aprendendo a administrar minha vida com pouco. Descobri que tenho outras coisas que eu preciso mais, como viajar, fazer atividade física e rir cada dia mais.

Tudo o que eu não tive em 2014 foi pressa. Me inscrevi no Ciencias Sem Fronteiras e desisti. Não pela pressa de me formar, como meus colegas sempre dizem. Mas porque o que eu quero agora é estar aqui, com as pessoas que eu gosto.

Juntei dinheiro o ano inteiro para viajar e no primeiro dia de 2015 vou sair do país pela primeira vez(na verdade, vou pegar um avião pela primeira vez, olha que pobreza!). Esse é o tipo de coisa que eu estou precisando. Não de roupa, sapato, comida de restaurante. Mas de conhecer outros lugares do mundo.

Essa vontade que me deu de viajar em 2014 só me fez bem. Na minha família nunca ninguém viaja, então imaginem como foi pro meu pai, super cabeça dura, tentar entender essa minha vontade! Graças as ideias de viajar, fiz curso de ingles, de espanhol. Não sei o que mais quero continuar aprendendo em 2015. Vou ir descobrindo.

Descobri o prazer de fazer atividade física(que me fizeram perder 6 quilos e aumentar muito minha autoestima, rs), finalmente terminei o romance que havia escrito aos 16 anos e estava sem final porque eu não tinha coragem de dar um fim (sim, em 2015 sem falta eu tomo vergonha na cara para registrar e tentar publicar), comi menos doces, e aprendi a comer um monte de legumes e frutas que não comia antes!

Para nada disso eu gastei muito tempo ou dinheiro. Em 2014 tive bem menos dinheiro que em 2015. Na verdade, esse é o objetivo desse post. Mostrar que nem todo mundo precisa de muito. Talvez, você que está lendo, precise. E está tudo bem. Mas se não precisar, vai ser melhor ainda.

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/files/2013/02/formigas.jpg

5 de novembro de 2014

Tinha um livro no meio do caminho

Estava no ponto de onibus voltando pra casa.
Um cara de mais ou menos uns 50 anos me pergunta se o 484 para ali. Eu respondo que provavelmente sim, porque um outro onibus da mesma empresa acabou de parar. Ele olha para o livro que seguro (um livro preparatório pro TOEFL - que para quem não conhece é uma prova de proeficiencia em ingles) e fala: "Do you speak english?"
" A little", respondo. Ele pergunta se vou fazer o TOEFL. Respondo que o livro era de uma amiga e que o tinha emprestado a outro colega.
Mesmo comigo falando em portugues, ele insiste em falar em ingles.
Traduzindo basicamente, ele me conta sobre uma ONG de doação mútua de livros. Quando começa a falar, chega meu onibus.
"Tenho que ir, meu onibus chegou"
"Ei, espera, toma esse livro aqui de presente pra você."
E foi assim que eu ganhei um livro no caminho para casa.


6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.