27 de outubro de 2012

Não favorável

Então, hj eu tinha mt coisa pra estudar e hj e amanhã trabalho nas eleições mas precisei tirar 20 minutinhos pra escrever algo. Não sobre mim, ficção. Faz tempo que não escrevo, tô com saudade. Daí saiu isso. Esse pequeno conto é uma mistura de várias situações do meu dia-a-dia, obvio que nem todas aconteceram, mas a maioria já. Mas não juntas, ou eu teria cometido suicídio.


O celular despertou. 5:30. Talvez só mais um soninho... E daí ao invés de apertar “soneca” eu aperto “silenciar”. E caio no sono profundo. E o sonho que eu estava tendo continua. Eu estou andando a cavalo numa plantação de girassóis. É, nada a ver. Cavalos e girassóis. Eu devo estar sonhando. É como se o meu “eu” do sonho estivesse conectado com o meu “eu” do mundo real. Abro os olhos e olho pro celular. 5:58! DROGA! Eu pulo da cama gritando, falando palavrões e batendo a porta do quarto. Passo na área de serviço e pego minha toalha estendida no varal, na volta passo pela cozinha e tomo meu omeprazol ao mesmo tempo em que coloco pó de café e água na cafeteira. É um ciclo. Tomar café pra ficar acordada e tomar omeprazol pra amenizar a gastrite. Vou então para o banheiro e entro debaixo do chuveiro já com a escova de dentes coberta de pasta. Não creio: a água desce fria. Olho pra cima e o chuveiro marca inverno. “Só faltava essa porcaria quebrar”. Tomo banho frio revoltada e sinto que meu couro cabeludo continua oleoso, porque em um banho frio não há paciência ou coragem pra usar o xampu direito.

Saio do banho me enxugando loucamente ao mesmo tempo em que deixo um rastro de água pela casa. Coloco uma regata e uma calça jeans. 6:20. Ligo pra Bia e digo que ela pode ir sem mim pra aula, que eu vou chegar atrasada. O que é péssimo, porque perder carona é como perder comida. Passo na cozinha e coloco o café na xícara com um pouco de adoçante. Isso nunca vai funcionar, o médico foi bem específico: 1 hora de intervalo entre o remédio e o café da manhã. Eu só dei pouco mais de 20 minutos. Vou tomar o café e... ai! Quente, quente, queimei a língua. Cuspo no chão porque a essa altura eu já levei o café pra sala porque deixei a sapatilha ao lado da porta no dia anterior. Desisto!

Limpo o chão, penteio  o cabelo e saio de casa cheia de fome. Jogo a mochila nas costas e desço a escadaria do prédio, porque o elevador não tá no meu andar e eu tenho preguiça de esperar. Desço a rua correndo pra ver o ônibus passar de longe. Tinha lugar pra ir sentada. Ódio.

Continuo andando e fico 10 minutos esperando o próximo ônibus. Ele chega e eu vou em pé. Nenhuma alma se oferece pra carregar minha mochila. Que só tem um livro de 1500 páginas pra entregar na biblioteca da faculdade. No meio do caminho o transito para e eu vejo um carro igual ao de Bia todo esmagado. Ai. Meu. Deus.
Será que eu ter perdido a hora foi um plano de Deus pra eu ficar viva? Mas daí eu olho melhor pro carro e vejo que ele tem placa, que não sei porque diabos ficou intacta, de Curitiba. O transito está parado e eu me aborreço mesmo. Começo a chorar. A senhora na minha frente olha pra mim e faz cara de preocupada. E então eu começo:

”Eu perdi a hora, perdi minha carona, queimei minha língua com café, estou com dor no estomago, essa calça está apertada porque eu engordei 3 kg no mês passado depois que meu namorado terminou comigo e pra piorar semana fiz um canal dentário no cartão de crédito que eu não sei como vou fazer pra pagar. Minha vida é uma droga!”
A mulher continua olhando pra mim e diz: “ Você está reclamando do quê? Eu moro em Maricá e trabalho em Paquetá, minha filha de 16 anos está grávida e a minha mãe tem Alzheimer. Você tem noção do quanto é longe daqui até Paquetá? Eu peguei esse ônibus 5:30 e só vou chegar no trabalho 9:00! E minha mãe ainda acha que a minha filha sou eu!”

“Desculpa,” falo soluçando enquanto todo mundo no ônibus olha pra nós duas. Até os com fone de ouvido. Imagino que tenham colocado o fone no mudo só pra nos ouvir melhor. “Não quis pertubar. “
Um menino de uns 13 anos com uniforme de escola olha pra mim e oferece um Trakinas. “Toma moça, ouvi que você tava com fome.” Ao que eu respondo: “obrigada, posso pegar 2?” E ele assente que sim. Como o chocolate e fico mais feliz um pouquinho. Mas agora que há glicose em meu sistema nervoso central eu tomo vergonha na cara e desço do ônibus pra pegar o próximo, porque não quero ninguém me olhando como se eu fosse maluca. 

Então eu paro numa padaria compro uma Fanta uva superfaturada e sento no banco do ponto de ônibus. Paro, penso, e pego um coletivo de volta pra casa. Onde durmo até meio-dia. Sem sonhos.

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27 de outubro de 2012

Não favorável

Então, hj eu tinha mt coisa pra estudar e hj e amanhã trabalho nas eleições mas precisei tirar 20 minutinhos pra escrever algo. Não sobre mim, ficção. Faz tempo que não escrevo, tô com saudade. Daí saiu isso. Esse pequeno conto é uma mistura de várias situações do meu dia-a-dia, obvio que nem todas aconteceram, mas a maioria já. Mas não juntas, ou eu teria cometido suicídio.


O celular despertou. 5:30. Talvez só mais um soninho... E daí ao invés de apertar “soneca” eu aperto “silenciar”. E caio no sono profundo. E o sonho que eu estava tendo continua. Eu estou andando a cavalo numa plantação de girassóis. É, nada a ver. Cavalos e girassóis. Eu devo estar sonhando. É como se o meu “eu” do sonho estivesse conectado com o meu “eu” do mundo real. Abro os olhos e olho pro celular. 5:58! DROGA! Eu pulo da cama gritando, falando palavrões e batendo a porta do quarto. Passo na área de serviço e pego minha toalha estendida no varal, na volta passo pela cozinha e tomo meu omeprazol ao mesmo tempo em que coloco pó de café e água na cafeteira. É um ciclo. Tomar café pra ficar acordada e tomar omeprazol pra amenizar a gastrite. Vou então para o banheiro e entro debaixo do chuveiro já com a escova de dentes coberta de pasta. Não creio: a água desce fria. Olho pra cima e o chuveiro marca inverno. “Só faltava essa porcaria quebrar”. Tomo banho frio revoltada e sinto que meu couro cabeludo continua oleoso, porque em um banho frio não há paciência ou coragem pra usar o xampu direito.

Saio do banho me enxugando loucamente ao mesmo tempo em que deixo um rastro de água pela casa. Coloco uma regata e uma calça jeans. 6:20. Ligo pra Bia e digo que ela pode ir sem mim pra aula, que eu vou chegar atrasada. O que é péssimo, porque perder carona é como perder comida. Passo na cozinha e coloco o café na xícara com um pouco de adoçante. Isso nunca vai funcionar, o médico foi bem específico: 1 hora de intervalo entre o remédio e o café da manhã. Eu só dei pouco mais de 20 minutos. Vou tomar o café e... ai! Quente, quente, queimei a língua. Cuspo no chão porque a essa altura eu já levei o café pra sala porque deixei a sapatilha ao lado da porta no dia anterior. Desisto!

Limpo o chão, penteio  o cabelo e saio de casa cheia de fome. Jogo a mochila nas costas e desço a escadaria do prédio, porque o elevador não tá no meu andar e eu tenho preguiça de esperar. Desço a rua correndo pra ver o ônibus passar de longe. Tinha lugar pra ir sentada. Ódio.

Continuo andando e fico 10 minutos esperando o próximo ônibus. Ele chega e eu vou em pé. Nenhuma alma se oferece pra carregar minha mochila. Que só tem um livro de 1500 páginas pra entregar na biblioteca da faculdade. No meio do caminho o transito para e eu vejo um carro igual ao de Bia todo esmagado. Ai. Meu. Deus.
Será que eu ter perdido a hora foi um plano de Deus pra eu ficar viva? Mas daí eu olho melhor pro carro e vejo que ele tem placa, que não sei porque diabos ficou intacta, de Curitiba. O transito está parado e eu me aborreço mesmo. Começo a chorar. A senhora na minha frente olha pra mim e faz cara de preocupada. E então eu começo:

”Eu perdi a hora, perdi minha carona, queimei minha língua com café, estou com dor no estomago, essa calça está apertada porque eu engordei 3 kg no mês passado depois que meu namorado terminou comigo e pra piorar semana fiz um canal dentário no cartão de crédito que eu não sei como vou fazer pra pagar. Minha vida é uma droga!”
A mulher continua olhando pra mim e diz: “ Você está reclamando do quê? Eu moro em Maricá e trabalho em Paquetá, minha filha de 16 anos está grávida e a minha mãe tem Alzheimer. Você tem noção do quanto é longe daqui até Paquetá? Eu peguei esse ônibus 5:30 e só vou chegar no trabalho 9:00! E minha mãe ainda acha que a minha filha sou eu!”

“Desculpa,” falo soluçando enquanto todo mundo no ônibus olha pra nós duas. Até os com fone de ouvido. Imagino que tenham colocado o fone no mudo só pra nos ouvir melhor. “Não quis pertubar. “
Um menino de uns 13 anos com uniforme de escola olha pra mim e oferece um Trakinas. “Toma moça, ouvi que você tava com fome.” Ao que eu respondo: “obrigada, posso pegar 2?” E ele assente que sim. Como o chocolate e fico mais feliz um pouquinho. Mas agora que há glicose em meu sistema nervoso central eu tomo vergonha na cara e desço do ônibus pra pegar o próximo, porque não quero ninguém me olhando como se eu fosse maluca. 

Então eu paro numa padaria compro uma Fanta uva superfaturada e sento no banco do ponto de ônibus. Paro, penso, e pego um coletivo de volta pra casa. Onde durmo até meio-dia. Sem sonhos.

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