22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."


22 de setembro de 2013

Pacientes

Uma das coisas mais legais de se fazer Medicina é o contato com vários pacientes. Poder entrar na vida deles, ouvir o que fazem, como se sentem, é algo simplesmente incrível. Conhecer histórias de vida é gratificante. E saber que você pode interferir nessas histórias pode ser assustador. Mas enquanto sou uma mera academica, resta-me colher várias histórias, de várias doenças, de várias pessoas. Nesse 1 ano de ciclo clínico, certamente ouvir histórias muito interessantes. Não, não estou falando da história das doenças, mas da história das pessoas. Melhor ainda, conhecer as pessoas. Então, quero enumerar aqui, algumas das situações mis engraçadas com pacientes mais engraçados que conheci, passei por quase todas com Stephanie, já que a gente sempre colhe anamnese junta :

1. A senhora dos orgasmos

Eu estava no começo do 5o periodo. Precisava colher anamnese (que é a história da doença do paciente) e encontrei essa senhora de 40 e poucos anos internada na Cardio. Ela tinha doença de Chagas e colocaria um marcapasso. Quando eu cheguei na parte em que a gente pergunta sobre hábitos de vida:
" Já sei o que vocês vão me perguntar, sobre sexo. Eu sei que vocês tem que perguntar. Então, até me separar eu só tinha feito com meu marido. Aí, quando eu me separei arrumei um novo namorado. Fiquei com muita vergonha de fazer com ele, e ele foi muito paciente comigo. a gente ia pro motel e eu ficava com vergonha, daí a gente voltava. Quando finalmente a gente fez... eu não sabia que podia ser bom! Depois  tive outros namorados e foi ótimo. Não sei com quantos caras eu fiz depois disso, mas não dá contar. Às vezes era mais de um por dia, eu chegava em casa e outro me ligava. Aí eu ia. Quando eu era casada eu não sabia quanta coisa dava pra fazer. Mas apesar disso tudo eu descobri que nunca tive um orgasmo. Vocês sabem o que orgasmo? Já sentiram?Já?"
Após um momento de silencio (afinal eu estava assustada!) eu falei que não, porque eu sequer tenho um namorado. Na verdade, nada mais disso era importante pra anamnese, mas
"É, muita gente não teve. Eu conversei com outras pessoas e descobrir que, apesar de gostar da coisa, eu nunca tive um. Minha irmã fala umas coisas de um nível que eu não sinto. Acho que não vou sentir mais. Mas se vocês tiverem alguma dúvida quanto a isso, pode perguntar. Às vezes a gente tem duvida e tem que tirar, e fica sem graça de falar com a mãe ou outra pessoa. Mas eu quero ajudar."
O mais interessante foi como a dona M. inverteu o jogo como se ela estivesse cuidando da gente. E como ela falou disso tudo com a maior naturalidade.

2. O ex-travesti

Eu estava na DIP (doenças infecto-parasitárias) quando comecei a colher a historia de A., que era um rapaz que tinha HIV desde que nasceu. Logo, ele era imunossuprimido desde sempre e teve muuuitas doenças na infancia. Mas ele tinha 30 anos. Provavelmente os pais dele foram uns dos primeiros casos de AIDS no Brasil. O cara tinha todo o trejeito GLS. Acabou que na hora em que eu comecei a citar que perguntaria sobre habitos sexuais, ele começou a se soltar sozinho:
" Ah, claro. Então, eu já me envolvi com homem e com mulher. Eu inclusive já fui uma travesti linda. Eu andava na rua e as pessoas falavam 'olha que morena gostosa'. O nome que eu usava era Lana Beatriz. Eu escolhi esse nome quando namorei um francês e ele queria me levar pra França com ele, eu já tinha tirado passaporte e tudo. Na França, eu ia fazer cirurgia pra mudança de sexo. (...) Mas agora eu não sou mais disso, há seis meses eu entrei pra Igreja, desde que minha vó sofreu um AVC. Eu quero que ela seja feliz. Aí entrei pra Igreja e vou casar com uma mulher. Quero levar uma vida direita. (...) Mas quando eu tava no mundo eu gostava daqueles homens fortes, altos, que te jogam na parede e te pegam de jeito.(...) Mas eu saí dessa vida, tô na benção agora."
Desculpa Feliciano, mas tem coisas que não têm cura. Porque não é doença, é jeito de ser. E é pra sempre.

3 . A senhorinha da lista

Essa foi a melhor. Dona E. tinha 60 e poucos anos e estava internada pra operar uma hérnia. Enquanto ela contava sobre os médicos pelos quais passou, relatava o quanto eram bonitos, gentis...
" Vocês namoram com os médicos daqui?"
Contei que não. Esse é o tipo de impressão de Greys Anatomy deixa nas pessoas.
" Pois vocês são tontas. Pois têm uns médicos lindos nesse hospital. eu já tô velha, mas vocês têm que aproveitar. Anota aí (e pegou um papel na bolsa): dr. Fulano atende no ambulatório tal às quintas de manhã. Dr Beltrano atende no ambulatório tal as sextas de manhã. Dr. Cicrano atende às terças à tarde, esse inclusive terminou com a namorada semana passada, porque eu ouvi ele comentando sobre isso com alguém no celular. Se eu fosse você (e aí apontou pra mim) ia nesse. Vai lá, joga os cabelos, joga um charme, garota. É um desperdício estar num lugar desse e não aproveitar."