28 de dezembro de 2014

Pode ser que você precise de muito. Pode ser que não.

Nunca tantos objetivos foram realizados na minha vida como em 2014.
Na verdade, não lembro de nenhum outro ano em que tanta coisa tenha acontecido, pelo menos que tenha acontecido porque eu fiz com que acontecesse. Não tive nenhuma grande sorte inesperada, mas consegui fazer tudo o que eu queria e mais um pouco. Não, não tive mais dinheiro nem mais tempo livre que em 2013. Apenas tive mais vontade de parar de falar e fazer. Mais vontade de ser feliz.

É instigante essa coisa de como fazer pra ser feliz. Dia desses eu estava almoçando com o pessoal do estágio, era um domingo de sol e a gente estava num restaurante perto do hospital. A gente falava de trabalhar demais e tal. Desde que entrei na faculdade, sempre levantei a bandeira de que não devemos trabalhar demais. E ainda continuo fazendo isso. Mas é complicado das pessoas entenderem. Às vezes eu mesma me pergunto se eu não estou errada por isso.

Mas agora tenho pensado que o que faz a gente feliz é algo muito particular. Meus melhores momentos são conversando com meus amigos enquanto tomo chá gelado ou então assistindo séries com meu irmão. Nada que me custe muito dinheiro. Outro dia abri meu armário e me dei conta de que não preciso de nada. Quando passo em frente as vitrines vejo várias coisas que quero comprar. Mas lembro que não preciso de nada daquilo e volto pra casa. Creio que assim vou me adaptando ao que me faz feliz e aprendendo a administrar minha vida com pouco. Descobri que tenho outras coisas que eu preciso mais, como viajar, fazer atividade física e rir cada dia mais.

Tudo o que eu não tive em 2014 foi pressa. Me inscrevi no Ciencias Sem Fronteiras e desisti. Não pela pressa de me formar, como meus colegas sempre dizem. Mas porque o que eu quero agora é estar aqui, com as pessoas que eu gosto.

Juntei dinheiro o ano inteiro para viajar e no primeiro dia de 2015 vou sair do país pela primeira vez(na verdade, vou pegar um avião pela primeira vez, olha que pobreza!). Esse é o tipo de coisa que eu estou precisando. Não de roupa, sapato, comida de restaurante. Mas de conhecer outros lugares do mundo.

Essa vontade que me deu de viajar em 2014 só me fez bem. Na minha família nunca ninguém viaja, então imaginem como foi pro meu pai, super cabeça dura, tentar entender essa minha vontade! Graças as ideias de viajar, fiz curso de ingles, de espanhol. Não sei o que mais quero continuar aprendendo em 2015. Vou ir descobrindo.

Descobri o prazer de fazer atividade física(que me fizeram perder 6 quilos e aumentar muito minha autoestima, rs), finalmente terminei o romance que havia escrito aos 16 anos e estava sem final porque eu não tinha coragem de dar um fim (sim, em 2015 sem falta eu tomo vergonha na cara para registrar e tentar publicar), comi menos doces, e aprendi a comer um monte de legumes e frutas que não comia antes!

Para nada disso eu gastei muito tempo ou dinheiro. Em 2014 tive bem menos dinheiro que em 2015. Na verdade, esse é o objetivo desse post. Mostrar que nem todo mundo precisa de muito. Talvez, você que está lendo, precise. E está tudo bem. Mas se não precisar, vai ser melhor ainda.

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/files/2013/02/formigas.jpg

5 de novembro de 2014

Tinha um livro no meio do caminho

Estava no ponto de onibus voltando pra casa.
Um cara de mais ou menos uns 50 anos me pergunta se o 484 para ali. Eu respondo que provavelmente sim, porque um outro onibus da mesma empresa acabou de parar. Ele olha para o livro que seguro (um livro preparatório pro TOEFL - que para quem não conhece é uma prova de proeficiencia em ingles) e fala: "Do you speak english?"
" A little", respondo. Ele pergunta se vou fazer o TOEFL. Respondo que o livro era de uma amiga e que o tinha emprestado a outro colega.
Mesmo comigo falando em portugues, ele insiste em falar em ingles.
Traduzindo basicamente, ele me conta sobre uma ONG de doação mútua de livros. Quando começa a falar, chega meu onibus.
"Tenho que ir, meu onibus chegou"
"Ei, espera, toma esse livro aqui de presente pra você."
E foi assim que eu ganhei um livro no caminho para casa.


6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.

25 de junho de 2014

A sua cara

Estava numa loja de roupas com Mariane dia desses. Vi uma camisa rosa florida com mangas.
- Mari, eu sei que você vai dizer que é coisa de velha. Mas eu gostei. Vou experimentar.
- Eu realmente acho horrível. Essa estampa é mesmo coisa de velha. Mas é a sua cara, experimenta!

ah, e ficou horrorosa em mim, não comprei.

17 de junho de 2014

Tenta ser leve

Nos últimos meses tenho me sentido mais leve.
E não foram os 6 quilos que perdi DEPOIS que SAÍ da academia.
É leve na cabeça mesmo.

Chega um momento em que você percebe que está se preocupando com coisas tão bobas, mas tão bobas, que está perdendo a chance de aproveitar a melhor parte da vida. O caminho dos sonhos.

Lembre-se dos seus sonhos 10 anos atrás. Provavelmente quase nada se realizou, né? E mesmo assim você está satisfeito com o que aconteceu, estou certa? Viram? A graça é o caminho. A graça é as histórias que você fez. Daqui a 10 anos não vai fazer diferença o quê você almoçou hoje, mas as pessoas com quem você conversava durante o almoço. Não vai fazer diferença se você passou com 6,0 ou com 9,0. Vai fazer diferença sua consciência tranquila porque você fez o seu melhor. Talvez esse último exemplo não tenha nada a ver. Mas se eu fosse enumerar a quantidade de críticas que ouvi nos últimos tempos porque não estava me estressando o suficiente com a faculdade, a minha tecla enter ia ficar gasta.

Mas acontece que chega um momento em que é ridículo me estressar se isso não vai me levar a lugar nenhum. Juro, se eu voltasse alguns anos atrás teria me aborrecido bem menos. Daí, amigo leitor,  você deve estar pensando "mas meus problemas são realmente muito sérios". Bem, não duvido que sejam. Porque eu também tenho uns seríssimos. Uns são tão sérios que não tem saída. Que eu, particularmente, não vejo como EU posso resolver. Então, se eu não posso resolver, não faz sentido virar a noite acordada preocupada com isso. Mas pense: esse problema tem solução? Não? Então não temos um problema, temos uma coisa chata a ser aceita. E se tiver solução? Daí você resolve. Mas sem reclamar. Você senta, faz um café, olha pra janela e elabora a solução que você colocará em prática LOGO.

Lembre que a graça é o caminho. O caminho pra chegar nos seus sonhos. Se o caminho tá difícil, ponha graça nele. Coloque uma bala na bolsa. Procure algo que te dê prazer na jornada. Porque no dia em que você chegar lá, você vai se sentir muito mais satisfeito com o caminho em si do que com a concretização do sonho. Quer ver?

Pense em algo muito legal que aconteceu. Algo pelo qual você lutou e que você conseguiu. Qual a melhor recordação que você tem?
Vou dar um exemplo muito bobo.
Acontecimento: em 2009, quando eu passei um minuto conversando e tirando fotos com a Meg Cabot na Bienal do Livro.
Melhor recordação: ficar 4 horas numa fila cheia de gente legal, sentada no chão, falando sobre as mais diversas coisas legais no mundo. Ver as minhas amigas do outro lado do vidro dando tchau pra mim foi muito mais emocionante que o "come in" da Meg.
Viram? A melhor parte é o caminho, os detalhes, a alegria nossa com as pessoas que nos fazem bem.

Então, sabe como é, tenta ser leve. Você merece.


27 de maio de 2014

Trinta mil

ACABEI DE VER QUE CONSEGUI MAIS DE 30 MIL VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA!
Muito obrigada, mesmo!
Eu não posto quase nada quase nunca, mas vou me esforçar porque 30 mil visualizações merecem um novo post!

E sobre o quê postar? 

Pensei por alguns instantes e resolvi falar sobre o seu Tadeu*, um paciente que eu e alguns amigos tivemos no ano passado.No segundo semestre de 2013, durante o sexto periodo da faculdade, nossa turma foi organizada em grupos e cada grupo acompanhava a rotina de uma enfermaria do hospital. O meu grupo ficou em uma enfermaria masculina da clínica médica, a mesma onde João* esteve internado. Na divisão dos alunos entre os leitos, antes de conhecermos os pacientes, já houve o receio de quem ficaria com o leito 2. O paciente do leito 2 não falava e tinha seus movimentos comprometidos. Dois meninos ficaram responsáveis pelo leito 2.

O primeiro dia foi muito complicado, como eu observei do leito 3 e os meus colegas me relataram mais tarde. A comunicação parecia impossível. Ele apontava para o braço e ninguem entendia ao certo. Seu Tadeu havia sofrido um acidente vascular cerebral bastante extenso 2 meses antes. As sessões de fono e fisioterapia eram diárias.

Conforme os dias foram passando, começamos a perceber as coisas que seu Tadeu queria dizer. O modo como apontava, as expressões faciais. Entretanto, nos primeiros dias eu achava que seu Tadeu ia demorar muito tempo ainda no hospital. Muito tempo mesmo, muitos meses, talvez anos. Talvez nunca tivesse alta. E eu me sentia péssima por ser tão negativa em meus pensamentos.

Mas, graças a Deus, a força de vontade de seu Tadeu, o maravilhoso trabalho de toda a equipe que o assistia, eu estava errada. Algumas semanas depois, começaram os avanços. Seu Tadeu já sentava com apoio na cama. A notícia se espalhou pelo hospital. em todo o corredor do nono andar só se falava de sua melhora, de seu avanço. Mas nada foi tão emocionante quanto a manhã em que estávamos em outra enfermaria quando uma médica residente chegou exclamando "Seu Tadeu está falando!"

Todos corremos para o leito de seu Tadeu. Ao que a fonoaudióloga cobriu a traqueostomia, ele desatou a falar.
"O senhor sabe o seu nome?" - perguntou a professora.
E seu Tadeu respondeu seu nome completo sem pensar muito. Em seguida vieram perguntas de localização no tempo e no espaço e ele estava super consciente. Suas confusões eram insignificantes para alguém que estava internado há quase quatro meses.
Nos dias seguintes, ele recuperou alguns dos movimentos e aprendeu a cobrir a própria traqueostomia para falar. E como falava! Seu Tadeu falava de tudo. Comentava sobre sua família, discursava sobre sua neta, sua esposa, a história de sua vida e principalmente, elogiava as alunas e as médicas. Um dia virou pra mim e disse : "Você é a médica mais bonita desse hospital. Como você é bonita!". Penso para quantas alunas ele falou isso. Como ele gostava de nos elogiar. E falava dos meninos também. Certa vez virou para Diego, meu colega de turma e falou que ele era um menino muito "galante". Que quando ele ficasse bom iria viajar para Cruz das Almas com ele, e que lhe arrumaria uma namorada. Mas depois exclamou: "mas lá em Cruz das Almas vai ser mais difícil arrumar namorada, as meninas são tudo crente".

A melhora de seu Tadeu foi progressiva. E foi assim que no final de setembro de 2013 seu Tadeu recebeu alta. É claro que ele não era o mesmo de antes. Ele provavelmente não iria mais andar, e as chances de trocar a gastrostomia por alimentação via oral eram poucas. Mas como ele estava feliz. No dia de sua alta foi a primeira vez em que o vi sem as vestes do hospital, mas sim com suas vestes pessoais. Sua esposa e a tão amada neta estavam lá. Foi uma comoção geral. Todos os alunos e médicos do setor já estavam apegados a ele, assim como os enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogas.

O seu Tadeu foi muito marcante na vida de todos nós. Seu bom humor, sua disposição em melhorar, e o quanto sua melhora me fez acreditar mais que coisas antes incríveis se tornem possíveis fizeram de mim uma Luma muito melhor. Muito obrigada, Seu Tadeu.

* nome fictício

Os acidentes vasculares cerebrais (vulgos AVC, AVE, derrame etc) acometem muitas pessoas no mundo todo. Estão entre as principais causas de morte e morbidade (piora na qualidade de vida) em todo o mundo. Pacientes com hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol elevado por exemplo) e tabagistas têm maiores chances de ter um AVE qua a população em geral. Por isso, as pessoas que têm essas doenças devem mante-las sob controle, tomar os medicamentos, seguir dieta, fazer exercício.

Abaixo, alguns links do Ministério da Saúde com maiores informações sobre o assunto:
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/25130/avc-ministerio-da-saude--alerta-para-sinais-da-doenca
http://www.blog.saude.gov.br/index.php/saudeemdia/32001-identificar-sintomas-iniciais-do-avc-e-decisivo-para-o-tratamento

8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.

28 de dezembro de 2014

Pode ser que você precise de muito. Pode ser que não.

Nunca tantos objetivos foram realizados na minha vida como em 2014.
Na verdade, não lembro de nenhum outro ano em que tanta coisa tenha acontecido, pelo menos que tenha acontecido porque eu fiz com que acontecesse. Não tive nenhuma grande sorte inesperada, mas consegui fazer tudo o que eu queria e mais um pouco. Não, não tive mais dinheiro nem mais tempo livre que em 2013. Apenas tive mais vontade de parar de falar e fazer. Mais vontade de ser feliz.

É instigante essa coisa de como fazer pra ser feliz. Dia desses eu estava almoçando com o pessoal do estágio, era um domingo de sol e a gente estava num restaurante perto do hospital. A gente falava de trabalhar demais e tal. Desde que entrei na faculdade, sempre levantei a bandeira de que não devemos trabalhar demais. E ainda continuo fazendo isso. Mas é complicado das pessoas entenderem. Às vezes eu mesma me pergunto se eu não estou errada por isso.

Mas agora tenho pensado que o que faz a gente feliz é algo muito particular. Meus melhores momentos são conversando com meus amigos enquanto tomo chá gelado ou então assistindo séries com meu irmão. Nada que me custe muito dinheiro. Outro dia abri meu armário e me dei conta de que não preciso de nada. Quando passo em frente as vitrines vejo várias coisas que quero comprar. Mas lembro que não preciso de nada daquilo e volto pra casa. Creio que assim vou me adaptando ao que me faz feliz e aprendendo a administrar minha vida com pouco. Descobri que tenho outras coisas que eu preciso mais, como viajar, fazer atividade física e rir cada dia mais.

Tudo o que eu não tive em 2014 foi pressa. Me inscrevi no Ciencias Sem Fronteiras e desisti. Não pela pressa de me formar, como meus colegas sempre dizem. Mas porque o que eu quero agora é estar aqui, com as pessoas que eu gosto.

Juntei dinheiro o ano inteiro para viajar e no primeiro dia de 2015 vou sair do país pela primeira vez(na verdade, vou pegar um avião pela primeira vez, olha que pobreza!). Esse é o tipo de coisa que eu estou precisando. Não de roupa, sapato, comida de restaurante. Mas de conhecer outros lugares do mundo.

Essa vontade que me deu de viajar em 2014 só me fez bem. Na minha família nunca ninguém viaja, então imaginem como foi pro meu pai, super cabeça dura, tentar entender essa minha vontade! Graças as ideias de viajar, fiz curso de ingles, de espanhol. Não sei o que mais quero continuar aprendendo em 2015. Vou ir descobrindo.

Descobri o prazer de fazer atividade física(que me fizeram perder 6 quilos e aumentar muito minha autoestima, rs), finalmente terminei o romance que havia escrito aos 16 anos e estava sem final porque eu não tinha coragem de dar um fim (sim, em 2015 sem falta eu tomo vergonha na cara para registrar e tentar publicar), comi menos doces, e aprendi a comer um monte de legumes e frutas que não comia antes!

Para nada disso eu gastei muito tempo ou dinheiro. Em 2014 tive bem menos dinheiro que em 2015. Na verdade, esse é o objetivo desse post. Mostrar que nem todo mundo precisa de muito. Talvez, você que está lendo, precise. E está tudo bem. Mas se não precisar, vai ser melhor ainda.

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/files/2013/02/formigas.jpg

5 de novembro de 2014

Tinha um livro no meio do caminho

Estava no ponto de onibus voltando pra casa.
Um cara de mais ou menos uns 50 anos me pergunta se o 484 para ali. Eu respondo que provavelmente sim, porque um outro onibus da mesma empresa acabou de parar. Ele olha para o livro que seguro (um livro preparatório pro TOEFL - que para quem não conhece é uma prova de proeficiencia em ingles) e fala: "Do you speak english?"
" A little", respondo. Ele pergunta se vou fazer o TOEFL. Respondo que o livro era de uma amiga e que o tinha emprestado a outro colega.
Mesmo comigo falando em portugues, ele insiste em falar em ingles.
Traduzindo basicamente, ele me conta sobre uma ONG de doação mútua de livros. Quando começa a falar, chega meu onibus.
"Tenho que ir, meu onibus chegou"
"Ei, espera, toma esse livro aqui de presente pra você."
E foi assim que eu ganhei um livro no caminho para casa.


6 de setembro de 2014

Clube das Quatro-horas

Sexta feira, 17:00.

Saio do curso de Espanhol pensando na melhor forma de chegar em casa. mas não tinha. Fiquei 20 minutos esperando o onibus, que veio vazio. Ainda faltavam uns 50km pra chegar em casa. Ou mais. Fiquei com preguiça de ver no Google Maps.

Ainda dentro do campus da UFRJ vejo muitos, muitos carros parados. Inocente, mal sabia que estava prestes a pegá-lo. Sim, o maior engarrafamento da minha vida. E pensar que estava de sapatilha sem meia-calça. Meu dorso do pé ia congelar no ar condicionado.

Duas mulheres começam a falar de no banco de trás. Reclamar do trânsito. Que sempre tem.
Uma terceira é incluída na conversa. Passa alguns minutos. E mais uma se inclui. Eu, claro. Porque eu falo pra caramba e não ia aguentar mais tantas horas no silencio até chegar em casa.

Ao longo do assunto, Marileide comenta que não vai aguentar a fome até chegar em casa. "Tenho que comer de 3 em 3 horas. Eu fiz redução de estômago". Abre então a bolsa e tira um pacote de Nesfit. "Achei, achei! alguém, quer". Quero comentar que foi linda a felicidade em seu rosto.

Então Pindanga diz: "Eu nunca pego esse ônibus. Nunca fui em Niterói. Peguei esse só pra descer na Av. Brasil mesmo. Mas esse ônibus pelo menos parece confortável."

Eu e as outras duas passageiras rimos.
" Você que pensa. Tem vezes que bate 5 graus celsius. E esse banco dá dor no cóccix". - digo.
Porque dá mesmo. Muita dor.

Já eram 18:00. A gente ainda não tinha saído do Fundão. Ouço mais do que falo. Mas se eu não me concentrasse na conversa a hora nunca que iria passar.

Ambas começam a falar sobre o bairro em que moram, seus trabalhos, suas famílias. Só ouço.
Mais ou menos durante esse momento entra um senhor de meia idade no onibus. ele come

"Sério que você mora no Fantástico Mundo de Oz? Minha filha mora lá. O nome dela é Astrogilda, o marido dela é Nurialdo. Conhece?" - diz Carmelicia.
Marileide responde: "Ele é filho de um senhorzinho, seu Ezi..Eli..Eizi... ah, não sei."
Carmelicia: "Isso, seu Edizi.. não, Izeli... não... espera que vou lembrar".

"Gente, é o mesmo, e esse aí" - se intromete Carlito, recém agregado ao grupo.
Passam mais alguns minutos. As 19:00 finalmente chegamos na Avenida Brasil. Pindanga levanta.
"Bem que você disse que o banco dói" - ela fala

Entra um vendedor ambulante no onibus. TODOS OS PASSAGEIROS compram algo. Marileide compra dois pacotes e coloca na bolsa: "é sempre bom ter para alguma emergência". Em seguida tira uma selfie pra postar no Facebook.
Eu falo: "Sério que você vai rir na selfie? Se vc quiser eu tiro uma foto sua com cara de derrota, vai ser mais condinzente com a situação."

21:00. Subimos a ponte.

"É seu Elísio!" - grita Carmelicia.

Depois cada um desceu  e pegou seu ônibus pra sua casa.


p.s.: A história é toda verdade. Menos os nomes que possam comprometer a privacidade dos atores.











1 de setembro de 2014

É que a minha mão treme

Final da prova.

"Professor, vou tirar uma foto do cartão resposta pra conferir com o gabarito depois, tá?"

Ele faz que sim com a cabeça. Ele devia ter uns 70 anos.
Deixo o celular pertinho do papel e começo a fotografar.

"Por que você tira a foto tão de perto?"

"Ah, professor, é que minha mão treme. De pertinho a chance de erro é menor"

"E como você faz pra tirar selfie pra postar?"

"Então... eu não costumo tirar selfies."

"Logo porque sua mão treme? Vou te ensinar um truque. Você tem que ajustar a sua câmera pra tirar a foto bem rápido, antes que você trema. Entendeu?"

"Ah, entendi. Obrigada"

Não, eu não pretendo começar a tirar selfies da minha cara acordando, no onibus, na sala de aula, no hospital, jantando, nem nada do tipo. Na verdade eu não pretendo tirar selfie nenhuma. Todo o mundo já conhece a minha cara, minhas marquinhas de rosácea e meus cílios finos. Minha vontade de tirar selfie ou de criar um instagram são tão grandes quanto a minha vontade de comer rúcula. Mas eu queria que o coroa se sentisse útil e feliz, sabe como é.

25 de junho de 2014

A sua cara

Estava numa loja de roupas com Mariane dia desses. Vi uma camisa rosa florida com mangas.
- Mari, eu sei que você vai dizer que é coisa de velha. Mas eu gostei. Vou experimentar.
- Eu realmente acho horrível. Essa estampa é mesmo coisa de velha. Mas é a sua cara, experimenta!

ah, e ficou horrorosa em mim, não comprei.

17 de junho de 2014

Tenta ser leve

Nos últimos meses tenho me sentido mais leve.
E não foram os 6 quilos que perdi DEPOIS que SAÍ da academia.
É leve na cabeça mesmo.

Chega um momento em que você percebe que está se preocupando com coisas tão bobas, mas tão bobas, que está perdendo a chance de aproveitar a melhor parte da vida. O caminho dos sonhos.

Lembre-se dos seus sonhos 10 anos atrás. Provavelmente quase nada se realizou, né? E mesmo assim você está satisfeito com o que aconteceu, estou certa? Viram? A graça é o caminho. A graça é as histórias que você fez. Daqui a 10 anos não vai fazer diferença o quê você almoçou hoje, mas as pessoas com quem você conversava durante o almoço. Não vai fazer diferença se você passou com 6,0 ou com 9,0. Vai fazer diferença sua consciência tranquila porque você fez o seu melhor. Talvez esse último exemplo não tenha nada a ver. Mas se eu fosse enumerar a quantidade de críticas que ouvi nos últimos tempos porque não estava me estressando o suficiente com a faculdade, a minha tecla enter ia ficar gasta.

Mas acontece que chega um momento em que é ridículo me estressar se isso não vai me levar a lugar nenhum. Juro, se eu voltasse alguns anos atrás teria me aborrecido bem menos. Daí, amigo leitor,  você deve estar pensando "mas meus problemas são realmente muito sérios". Bem, não duvido que sejam. Porque eu também tenho uns seríssimos. Uns são tão sérios que não tem saída. Que eu, particularmente, não vejo como EU posso resolver. Então, se eu não posso resolver, não faz sentido virar a noite acordada preocupada com isso. Mas pense: esse problema tem solução? Não? Então não temos um problema, temos uma coisa chata a ser aceita. E se tiver solução? Daí você resolve. Mas sem reclamar. Você senta, faz um café, olha pra janela e elabora a solução que você colocará em prática LOGO.

Lembre que a graça é o caminho. O caminho pra chegar nos seus sonhos. Se o caminho tá difícil, ponha graça nele. Coloque uma bala na bolsa. Procure algo que te dê prazer na jornada. Porque no dia em que você chegar lá, você vai se sentir muito mais satisfeito com o caminho em si do que com a concretização do sonho. Quer ver?

Pense em algo muito legal que aconteceu. Algo pelo qual você lutou e que você conseguiu. Qual a melhor recordação que você tem?
Vou dar um exemplo muito bobo.
Acontecimento: em 2009, quando eu passei um minuto conversando e tirando fotos com a Meg Cabot na Bienal do Livro.
Melhor recordação: ficar 4 horas numa fila cheia de gente legal, sentada no chão, falando sobre as mais diversas coisas legais no mundo. Ver as minhas amigas do outro lado do vidro dando tchau pra mim foi muito mais emocionante que o "come in" da Meg.
Viram? A melhor parte é o caminho, os detalhes, a alegria nossa com as pessoas que nos fazem bem.

Então, sabe como é, tenta ser leve. Você merece.


27 de maio de 2014

Trinta mil

ACABEI DE VER QUE CONSEGUI MAIS DE 30 MIL VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA!
Muito obrigada, mesmo!
Eu não posto quase nada quase nunca, mas vou me esforçar porque 30 mil visualizações merecem um novo post!

E sobre o quê postar? 

Pensei por alguns instantes e resolvi falar sobre o seu Tadeu*, um paciente que eu e alguns amigos tivemos no ano passado.No segundo semestre de 2013, durante o sexto periodo da faculdade, nossa turma foi organizada em grupos e cada grupo acompanhava a rotina de uma enfermaria do hospital. O meu grupo ficou em uma enfermaria masculina da clínica médica, a mesma onde João* esteve internado. Na divisão dos alunos entre os leitos, antes de conhecermos os pacientes, já houve o receio de quem ficaria com o leito 2. O paciente do leito 2 não falava e tinha seus movimentos comprometidos. Dois meninos ficaram responsáveis pelo leito 2.

O primeiro dia foi muito complicado, como eu observei do leito 3 e os meus colegas me relataram mais tarde. A comunicação parecia impossível. Ele apontava para o braço e ninguem entendia ao certo. Seu Tadeu havia sofrido um acidente vascular cerebral bastante extenso 2 meses antes. As sessões de fono e fisioterapia eram diárias.

Conforme os dias foram passando, começamos a perceber as coisas que seu Tadeu queria dizer. O modo como apontava, as expressões faciais. Entretanto, nos primeiros dias eu achava que seu Tadeu ia demorar muito tempo ainda no hospital. Muito tempo mesmo, muitos meses, talvez anos. Talvez nunca tivesse alta. E eu me sentia péssima por ser tão negativa em meus pensamentos.

Mas, graças a Deus, a força de vontade de seu Tadeu, o maravilhoso trabalho de toda a equipe que o assistia, eu estava errada. Algumas semanas depois, começaram os avanços. Seu Tadeu já sentava com apoio na cama. A notícia se espalhou pelo hospital. em todo o corredor do nono andar só se falava de sua melhora, de seu avanço. Mas nada foi tão emocionante quanto a manhã em que estávamos em outra enfermaria quando uma médica residente chegou exclamando "Seu Tadeu está falando!"

Todos corremos para o leito de seu Tadeu. Ao que a fonoaudióloga cobriu a traqueostomia, ele desatou a falar.
"O senhor sabe o seu nome?" - perguntou a professora.
E seu Tadeu respondeu seu nome completo sem pensar muito. Em seguida vieram perguntas de localização no tempo e no espaço e ele estava super consciente. Suas confusões eram insignificantes para alguém que estava internado há quase quatro meses.
Nos dias seguintes, ele recuperou alguns dos movimentos e aprendeu a cobrir a própria traqueostomia para falar. E como falava! Seu Tadeu falava de tudo. Comentava sobre sua família, discursava sobre sua neta, sua esposa, a história de sua vida e principalmente, elogiava as alunas e as médicas. Um dia virou pra mim e disse : "Você é a médica mais bonita desse hospital. Como você é bonita!". Penso para quantas alunas ele falou isso. Como ele gostava de nos elogiar. E falava dos meninos também. Certa vez virou para Diego, meu colega de turma e falou que ele era um menino muito "galante". Que quando ele ficasse bom iria viajar para Cruz das Almas com ele, e que lhe arrumaria uma namorada. Mas depois exclamou: "mas lá em Cruz das Almas vai ser mais difícil arrumar namorada, as meninas são tudo crente".

A melhora de seu Tadeu foi progressiva. E foi assim que no final de setembro de 2013 seu Tadeu recebeu alta. É claro que ele não era o mesmo de antes. Ele provavelmente não iria mais andar, e as chances de trocar a gastrostomia por alimentação via oral eram poucas. Mas como ele estava feliz. No dia de sua alta foi a primeira vez em que o vi sem as vestes do hospital, mas sim com suas vestes pessoais. Sua esposa e a tão amada neta estavam lá. Foi uma comoção geral. Todos os alunos e médicos do setor já estavam apegados a ele, assim como os enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogas.

O seu Tadeu foi muito marcante na vida de todos nós. Seu bom humor, sua disposição em melhorar, e o quanto sua melhora me fez acreditar mais que coisas antes incríveis se tornem possíveis fizeram de mim uma Luma muito melhor. Muito obrigada, Seu Tadeu.

* nome fictício

Os acidentes vasculares cerebrais (vulgos AVC, AVE, derrame etc) acometem muitas pessoas no mundo todo. Estão entre as principais causas de morte e morbidade (piora na qualidade de vida) em todo o mundo. Pacientes com hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol elevado por exemplo) e tabagistas têm maiores chances de ter um AVE qua a população em geral. Por isso, as pessoas que têm essas doenças devem mante-las sob controle, tomar os medicamentos, seguir dieta, fazer exercício.

Abaixo, alguns links do Ministério da Saúde com maiores informações sobre o assunto:
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/25130/avc-ministerio-da-saude--alerta-para-sinais-da-doenca
http://www.blog.saude.gov.br/index.php/saudeemdia/32001-identificar-sintomas-iniciais-do-avc-e-decisivo-para-o-tratamento

8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














10 de março de 2014

para ver

- Pai, meu dia foi uma porcaria. (...) E ainda quebrei uma lente dos meus óculos.
- Já te falei que gente estabanada igual a você não pode ficar usando essas coisas caras.
- Pai, meus óculos foram um dos mais baratos da loja.
- Mas óculos sempre é caro.
- Mas eu preciso dos oculos. 
- Você acha que precisa.
- Não, pai. Eu realmente preciso. eu preciso dos óculos. Para VER.

Papai e sua mania de se atrapalhar ao dar conselhos. Oh, e ele não admitiu que eu estava certa!

7 de fevereiro de 2014

Biscoito

Sexta feira, 13h.
Auditório do Instituto de Pediatria da UFRJ.
Professora, uma senhora fofa demais, entra na sala de aula e fala:
"Gente, trouxe uma coisa pra deixar vocês acordados."

Nesse momento, a professora pega uma sacola e entrega váááááários pacotes de biscoito de Kid Lat chocolate pra turma. Alegria geral.




Daí, no fim da aula, ela vira e fala: "Gente, tem mais aqui" e abre uma sacola com váááários pacotes de biscoito. Dessa vez, Negresco.



Então, foi tirar os slides. Depois, pegou mais uma bolsa com vááááários pacotes de Kid Lat de chocolate com morango e deu pra turma.


Quando eu digo vários, é papo de uns 15 pacotes ou mais de cada tipo de biscoito.
Eu achei que ela tem cara de quem faz bolo pros netos. Thiago disse que ela tem cara de quem enche o prato dos netos de batata frita. E compra picolé pra eles. Mas não picolé da fruta. Magnum e essas paradas que custam mais de 5,00. 
(eu nunca comi um magnum. 6,00 é muito dinheiro pra um picolé. Quem sabe quando eu casar com Harry e virar princesa.)

Quase perguntei onde ela mora e se distribui doce no dia de São Cosme e São Damião. Porque, vai que, né?


É assim que a pediatria me conquista a cada dia mais. Na primeira pratica de pediatria que tive atraves da Laped (Liga Academica de Pediatria), em 2012, ganhei um pedaço de bolo de maracujá. As medicas que atendiam no dia estavam fazendo uma festa de aniversario no dia em que eu cheguei e foi só eu bater na porta que eles já a abriram com uma fatia de bolo e me chamando pra entrar. Duvido isso acontecer em outras áreas. Geralmente academico, quizá de 4o periodo (que é onde eu tava na epoca), esta abaixo da base da piramide. Tipo, eu e Stephanie uma vez organizamos algo tipo assim:



Na segunda pratica de pediatria que tive, encontrei a endocrinopediatra que me atendeu quando eu tinha 9 anos. Foi engraçado ouvir o discurso sobre "a importancia dos coloridos no prato" quando se está do outro lado. Lá na pediatria o elevador funciona (coisa que no HU, que tem 13 andares nao rola), mas ninguem usa, porque só tem 3 andares. E as paredes tem desenhos pintados pelas crianças. Tipo, é outro mundo. É um mundo as pessoas são educadas. Educadas, entendeu? Pessoas fofas! Onde os medicos, pelo menos a maioria, não ignoram sua presença. É surreal. Cara, é tipo Nárnia.