27 de agosto de 2016

Foi em 2002

A primeira vez em que eu ouvi falar em Complexo do Alemão foi em 2002. Eu tinha 9 anos.
A gente estava na 3a série e no noticiário sempre passava que um jornalista tava desaparecido. O nome dele era Tim Lopes. Estávamos as vésperas da Copa do Mundo de 2002, que ia ser no Japão e Coreia do Sul e os jogos seriam transmitidos de madrugada. Estávamos passando por uma epidemia de dengue no Rio, a maior até então. Eram esses os três assuntos do Jornal Nacional.
1. Tim Lopes desaparecido
2. Dengue assolando o Rio de Janeiro
3. A Copa do Mundo chegando.

A segunda vez em que o Complexo do Alemão me chamou a atenção foi em novembro de 2010. Final de novembro. Época do meu aniversário de 18 anos. Eu estava prestando vestibular. Mas no telejornal só mostravam carros queimados no Rio de Janeiro. Um dos meus professores do meu colégio em Niterói disse que os pais dos seus alunos na Barra da Tijuca estavam assustados de deixar os adolescentes prestarem vestibular em provas nos bairros "perigosos". Finzinho de novembro. A cena da fuga de traficantes da Vila Cruzeiro se repetia na TV. Se repetia o tempo inteiro.

A primeira vez em que a médica Zilda Arns me chamou a atenção foi em janeiro de 2010. Sim, quando ela morreu. Eu já tinha visto Zilda Arns na TV algumas vezes, sabia que ela era a "senhorinha da Pastoral da Criança", aquela instituição cuja propaganda pesava as crianças em balanças que pareciam umas fradas-balanço. Mas eu nunca tinha prestado muita atenção. Foi quando Zilda Arns, pediatra, morreu no terremoto que destruiu o Haiti em 2010, que eu prestei mais atenção naquela mulher.

No começo do ano passado, eu estava no meu quarto da casa da família Mejía, no bairro simples de Independencia, em Lima, capital do Peru quando me falaram que alguém fez uma lista não oficial dos aprovados no concurso de estágio remunerado da prefeitura do Rio e eu estaria aprovada. Só pensava no quanto aqueles 550,00 seriam bem vindos pra pagar as prestações dos vôos da Tam que me levaram a meu intercambio.
E foi pensando apenas no dinheiro, sim, no dinheiro mesmo, que dois meses depois eu estava na lotação dos estagiários numa sala grande e quente da Unigranrio da Lapa.
Eu só queria uma clínica de fácil acesso da república pra onde eu tinha acabado de me mudar, dividindo a casa com mais 7 meninas, na Cidade Universitária. Eu tinha acabado de sair de casa e tinha que me virar no máximo de estágios e monitorias para pagar minhas despesas.
As clínicas que eu conhecia foram se esgotando e não sobrava mais vaga pra mim.

Uma colega de turma, a Thaís, me passou a lista de preferencias dela. Super antenada em medicina de família e comunidade, Thaís foi me explicando os pontos positivos e negativos de cada clínica. Thaís escolheu a clínica dela, na Ilha do Governador. Eu fiquei com a lista dela, esperando ser chamada para escolher. Da lista de Thaís só restava uma clínica na minha vez. A Clínica da Família Zilda Arns, no Complexo do Alemão.
A clínica que tinha o nome da senhorinha da Pastoral. Que ficava onde mataram o tal do Tim Lopes.

Na CFZA eu me tornei outra Luma. Se eu fui pra lá contando com 550,00 de bolsa, lá eu recebi coisas que nenhum dinheiro do mundo pagaria. Trabalhei com profissionais maravilhosos. Os funcionarios da limpeza, os funcionários da administração, os enfermeiros, os dentistas, os médicos, os agentes de saúde, os tecnicos, até o pessoal da informatica que vinha consertar o computador quando dava ruim.

Eu não cresci e surgi como médica. Eu cresci como gente. A CFZA mudou a minha vida como um todo. Porque uma coisa é você ser pobre. Outra coisa é você ser pobre, favelado, vítima de violência, marginalizado mesmo. Porque o Complexo tá cheio de gente que faz das tripas o coração pra viver melhor e não consegue.

Na entrada da Clínica existe uma placa atualizada mensalmente sobre as estatisticas da população atendida. 37,6% dos adultos são analfabetos. 37,6%. 37,6% dos maiores de 15 anos são analfabetos. Em pleno Rio de Janeiro. Em 2016.
A coisa é muito séria, galera É séria pra caramba.

Há alguns meses eu tomei a decisão de sair de lá, após 1 ano e meio de estágio. Um lugar onde eu trabalharia até de graça. Um lugar onde eu pensava em passar o resto da vida. A violência crescente dos últimos meses (porque se você acha que não teve terrorismo nas olimpiadas tá desinformado, teve muito e tá tendo ainda -  a diferença é que ele não é praticado pelo Estado Islamico) me sufocou de um modo que não deu mais.
Depois que vivenciei um tiroteio e ouvi tiros do meu ladinho, que eu me joguei no chão e que vi escorrer sangue de gente inocente, que só tava passando na rua, minha vida mudou.
Eu virei um dos meus pacientes. Eu sentia tanto medo quanto eles. E cada vez que eu ouço as histórias, tão frequentes, de violencia, eu vivencio de novo. Essa semana, troquei meu campus de estágio. Com um aperto no coração que não dá pra explicar. Mas eu preciso tentar cuidar de mim.

Mas o que a CFZA fez comigo tá comigo em tudo o que eu faço. A atitude da Ariadne, as good vibes do João Pedro e da Luiza, as brincadeiras da Betina, as trocas de olhares e telepatia com a Tainá, a Mari Eccard e a Cíntia, as histórias de chorar de rir da Kássia, a sensibilidade da Lia, a vontade de ensinar do Roberto, do Eji e do Humberto, o cuidado com os pacientes do Hugo, a elegância da Mari Zau, as mordeduras de cão dos pacientes do Ricardo, Os almoços na laje, os cafés na padaria, os biscoitos feitos pela esposa do seu Jailton. São coisas que faz de mim a Luma que sou. As histórias de fibra e abraços calorosos de pessoas incriveis, como a Cris e a Cristina, a admiração pela inteligencia da Helena(que com 10 anos tem que saber tudo de todas as doenças, porque vai ser médica quando crescer e médico tem que saber de tudo), os sonhos do Lucas, a disposição da Lene. O bom humor dos profissionais da educação física. Aprender a ler os textos super bem feitos pelos meninos da Voz da Comunidade. Cara, vocês mudaram a minha vida.

Vocês mudaram de um jeito que não dá pra explicar.

Não sei como que faz pra agradecer tudo a todo mundo, mas foi tudo cheio de muita emoção. Cheio de risos, choros, alegrias tristezas, surpresas boas e ruins. Foi tudo cheio de muita emoção.
Tudo o que eu vivi ali, naquela clínica que tem o nome da "senhorinha pediatra da Pastoral" e que fica perto do colégio que tem o nome do "jornalista que foi assassinado", foi de uma intensidade indescritivel.
Deus foi muito generoso comigo de me proporcionar tê-los na minha vida.

lista de escolhas da Thais em março de 2015, que me levou a tomar uma das melhores decisões da minha vida, e que eu guardei de recordação.




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27 de agosto de 2016

Foi em 2002

A primeira vez em que eu ouvi falar em Complexo do Alemão foi em 2002. Eu tinha 9 anos.
A gente estava na 3a série e no noticiário sempre passava que um jornalista tava desaparecido. O nome dele era Tim Lopes. Estávamos as vésperas da Copa do Mundo de 2002, que ia ser no Japão e Coreia do Sul e os jogos seriam transmitidos de madrugada. Estávamos passando por uma epidemia de dengue no Rio, a maior até então. Eram esses os três assuntos do Jornal Nacional.
1. Tim Lopes desaparecido
2. Dengue assolando o Rio de Janeiro
3. A Copa do Mundo chegando.

A segunda vez em que o Complexo do Alemão me chamou a atenção foi em novembro de 2010. Final de novembro. Época do meu aniversário de 18 anos. Eu estava prestando vestibular. Mas no telejornal só mostravam carros queimados no Rio de Janeiro. Um dos meus professores do meu colégio em Niterói disse que os pais dos seus alunos na Barra da Tijuca estavam assustados de deixar os adolescentes prestarem vestibular em provas nos bairros "perigosos". Finzinho de novembro. A cena da fuga de traficantes da Vila Cruzeiro se repetia na TV. Se repetia o tempo inteiro.

A primeira vez em que a médica Zilda Arns me chamou a atenção foi em janeiro de 2010. Sim, quando ela morreu. Eu já tinha visto Zilda Arns na TV algumas vezes, sabia que ela era a "senhorinha da Pastoral da Criança", aquela instituição cuja propaganda pesava as crianças em balanças que pareciam umas fradas-balanço. Mas eu nunca tinha prestado muita atenção. Foi quando Zilda Arns, pediatra, morreu no terremoto que destruiu o Haiti em 2010, que eu prestei mais atenção naquela mulher.

No começo do ano passado, eu estava no meu quarto da casa da família Mejía, no bairro simples de Independencia, em Lima, capital do Peru quando me falaram que alguém fez uma lista não oficial dos aprovados no concurso de estágio remunerado da prefeitura do Rio e eu estaria aprovada. Só pensava no quanto aqueles 550,00 seriam bem vindos pra pagar as prestações dos vôos da Tam que me levaram a meu intercambio.
E foi pensando apenas no dinheiro, sim, no dinheiro mesmo, que dois meses depois eu estava na lotação dos estagiários numa sala grande e quente da Unigranrio da Lapa.
Eu só queria uma clínica de fácil acesso da república pra onde eu tinha acabado de me mudar, dividindo a casa com mais 7 meninas, na Cidade Universitária. Eu tinha acabado de sair de casa e tinha que me virar no máximo de estágios e monitorias para pagar minhas despesas.
As clínicas que eu conhecia foram se esgotando e não sobrava mais vaga pra mim.

Uma colega de turma, a Thaís, me passou a lista de preferencias dela. Super antenada em medicina de família e comunidade, Thaís foi me explicando os pontos positivos e negativos de cada clínica. Thaís escolheu a clínica dela, na Ilha do Governador. Eu fiquei com a lista dela, esperando ser chamada para escolher. Da lista de Thaís só restava uma clínica na minha vez. A Clínica da Família Zilda Arns, no Complexo do Alemão.
A clínica que tinha o nome da senhorinha da Pastoral. Que ficava onde mataram o tal do Tim Lopes.

Na CFZA eu me tornei outra Luma. Se eu fui pra lá contando com 550,00 de bolsa, lá eu recebi coisas que nenhum dinheiro do mundo pagaria. Trabalhei com profissionais maravilhosos. Os funcionarios da limpeza, os funcionários da administração, os enfermeiros, os dentistas, os médicos, os agentes de saúde, os tecnicos, até o pessoal da informatica que vinha consertar o computador quando dava ruim.

Eu não cresci e surgi como médica. Eu cresci como gente. A CFZA mudou a minha vida como um todo. Porque uma coisa é você ser pobre. Outra coisa é você ser pobre, favelado, vítima de violência, marginalizado mesmo. Porque o Complexo tá cheio de gente que faz das tripas o coração pra viver melhor e não consegue.

Na entrada da Clínica existe uma placa atualizada mensalmente sobre as estatisticas da população atendida. 37,6% dos adultos são analfabetos. 37,6%. 37,6% dos maiores de 15 anos são analfabetos. Em pleno Rio de Janeiro. Em 2016.
A coisa é muito séria, galera É séria pra caramba.

Há alguns meses eu tomei a decisão de sair de lá, após 1 ano e meio de estágio. Um lugar onde eu trabalharia até de graça. Um lugar onde eu pensava em passar o resto da vida. A violência crescente dos últimos meses (porque se você acha que não teve terrorismo nas olimpiadas tá desinformado, teve muito e tá tendo ainda -  a diferença é que ele não é praticado pelo Estado Islamico) me sufocou de um modo que não deu mais.
Depois que vivenciei um tiroteio e ouvi tiros do meu ladinho, que eu me joguei no chão e que vi escorrer sangue de gente inocente, que só tava passando na rua, minha vida mudou.
Eu virei um dos meus pacientes. Eu sentia tanto medo quanto eles. E cada vez que eu ouço as histórias, tão frequentes, de violencia, eu vivencio de novo. Essa semana, troquei meu campus de estágio. Com um aperto no coração que não dá pra explicar. Mas eu preciso tentar cuidar de mim.

Mas o que a CFZA fez comigo tá comigo em tudo o que eu faço. A atitude da Ariadne, as good vibes do João Pedro e da Luiza, as brincadeiras da Betina, as trocas de olhares e telepatia com a Tainá, a Mari Eccard e a Cíntia, as histórias de chorar de rir da Kássia, a sensibilidade da Lia, a vontade de ensinar do Roberto, do Eji e do Humberto, o cuidado com os pacientes do Hugo, a elegância da Mari Zau, as mordeduras de cão dos pacientes do Ricardo, Os almoços na laje, os cafés na padaria, os biscoitos feitos pela esposa do seu Jailton. São coisas que faz de mim a Luma que sou. As histórias de fibra e abraços calorosos de pessoas incriveis, como a Cris e a Cristina, a admiração pela inteligencia da Helena(que com 10 anos tem que saber tudo de todas as doenças, porque vai ser médica quando crescer e médico tem que saber de tudo), os sonhos do Lucas, a disposição da Lene. O bom humor dos profissionais da educação física. Aprender a ler os textos super bem feitos pelos meninos da Voz da Comunidade. Cara, vocês mudaram a minha vida.

Vocês mudaram de um jeito que não dá pra explicar.

Não sei como que faz pra agradecer tudo a todo mundo, mas foi tudo cheio de muita emoção. Cheio de risos, choros, alegrias tristezas, surpresas boas e ruins. Foi tudo cheio de muita emoção.
Tudo o que eu vivi ali, naquela clínica que tem o nome da "senhorinha pediatra da Pastoral" e que fica perto do colégio que tem o nome do "jornalista que foi assassinado", foi de uma intensidade indescritivel.
Deus foi muito generoso comigo de me proporcionar tê-los na minha vida.

lista de escolhas da Thais em março de 2015, que me levou a tomar uma das melhores decisões da minha vida, e que eu guardei de recordação.




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