8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














Um comentário:

8 de maio de 2014

Por causa do danone

# censura: uns 10 anos. Não invente de ler em voz alta pro seu filho que está no Jardim II.

Hospital do  Fundão
Serviço de Dermatologia.

Um grupo de academicos, professor e residente estão reunidos em uma das salas do ambulatório, esperando a chegada dos pacientes.

Uma das pacientes, uma senhora de meia idade, bate na porta e entra.
- Então, dona Zainurita*, o que lhe trouxe à Dermato?
- É o seguinte, tenho uma coceira horrível no corpo. Mas não é só a coceira. - a paciente continua falando bastante rápido e exaltada - Eu tenho uma hérnia na coluna que me doi muito. Não posso sentar, carregar peso. Também tô com um caroço na tireóide que não querem me operar. Disseram que não precisa. Querem me matar, isso sim. Uma pessoa já me disse que isso é câncer. Não estão querendo tirar meu câncer.

A médica residente observa o prontuário e vê o relato de um nódulo pequeno e benigno de tireóide (afinal, 95% dos nódulos de tireóide são perfeitamente benignos). A paciente não parou nem para respirar.

- Também tô tomando um monte de remédios. Ah, e antes que alguém me pergunte. Eu não faço sexo. Meu pai nunca deixou eu casar. - e continuou - tenho essa dor no pescoço que me mata. Dói isso aqui tudo. Também tô com uma fraqueza nas pernas. Ah, e o ginecologista me passou esses remedios aqui.

Nesse momento ela abre uma sacola bastante cheia, com vários medicamento. Joga umas três caixas na mesa.

- O ginecologista que me atendeu era um maluco. Ele disse que pra resolver meu problema eu tenho que me prostituir, sair transando com todo mundo. Onde já se viu sair transando com todo mundo? Ah, sim, e eu também fico muito nervosa com essa situação. porque operaram meu coração errado. E depois eu fiz um exame no rim e esqueceram de colocar uma sonda em mim. Daí minha bexiga quase explodiu no meu corpo. Quem me salvou foi uma filha de um advogado, que tava andando pelo corredor do hospital no dia. Eu quase morri. É muito médico tratando a gente errado. Ah, e tem os remédios que eu tomo.

Nesse momento, ela abre a bolsa e joga na mesa (e eu não estou exagerando, por Deus) umas 30 caixas de remédios.

- Esses são os remédios que eu tomo. E nada nunca melhora.

A médica residente tenta voltar ao problema:

- Mas e essa coceira?

- Ah, sim. essa coceira é no corpo todo, corpo todo. Olha, como eu me coço. - e daí, a paciente que estava há uns 20 minutos sem se coçar, volta a fazê-lo - E eu já tomei vários remédios.

E adivinhem o que ocorreu? Sim, mais caixas de remédio surgem na mesa.

- E quando começou a coceira?

- Ah, começou em janeiro. Eu me coço o tempo todo. Tive diarréia. Meu cabelo cai muito.

Olhei para o couro cabeludo da paciente. Nenhum sinal de rarefação. Além disso, é perfeitamente normal perder até 300 fios de cabelo por dia.

Dona Zainurita então pega outra sacola. e começa a jogar vários chumaços de cabelo em cima da mesa.

- Caiu isso tudo aí. - contou com naturalidade.

O chumaço tinha menos fios de cabelo do que cai da minha cabeça em uma lavagem.

Uma das alunas, chocada com o ato, diz:
- Isso caiu em um dia?
- Não, isso aí caiu em vários dias. o de hoje está aqui.

Então nos apresentou uma pequena quantidade de cabelo à parte.

O professor pergunta à paciente:
- Alguma vez lhe encaminharam à psiquiatria? Sabe, o psiquiatra é médico também e pode ajudá-la, a senhora já toma muitos remédios. Ele pode ajudá-la sobre os remédios que a senhora toma. - disse ele cheio de tato, já que muitos pacientes tem horror à psiquiatria. principalmente os que mais precisam dela.

- Sim, me encaminharam. E eu quero ir lá ver esse médico. Pra ver o que ele pensa desse ginecologista que mandou eu me prostituir.

A médica residente então, afastando as caixas de remédio e fios de cabelo, faz uma prescrição.
- Aqui, suspende esses remedios (e apontou para alguns). Tome esse antialérgico.
- Ele é de manipulação?
- Não, a senhora compra pronto.
- Ótimo, porque meu pai morreu porque tomou remédio de manipulação. Doutora, você acha que isso é câncer? - e aponta uma verruga bem pequena no pescoço.
- A senhora tem há muito tempo?
- Sempre tive. Mas vai que é câncer.
- Fique tranquila, a gente vai observar isso. Mas não é câncer não. - continuou a jovem médica, cheia da paciência.

Uma aluna então diz:
- Pode pegar esses cabelos e jogar fora, viu?
- Não, ela não vai jogar fora. - diz o professor. - é melhor que ela leve na consulta do médico psiquiatra e mostre a ele, assim como os medicamentos. Está bem, dona Zainurita?

Ao guardar os cabelos e caixas de medicamentos, a paciente retira um vidro de leite fermentado vazio da bolsa. Põe em cima da mesa.
- Tudo começou com isso. Eu tomei um vidro de danone em janeiro e tô passando mal até hoje.
- A senhora ainda está tomando o danone? - perguntou o professor?
- Não, só tomei um. Mas tô me coçando até hoje.
- Ótimo, leve o vidro no psiquiatra também.

A paciente levanta-se para ir embora. Ao passar pela porta, ela diz por ultimo.
- Eu não casei, não tive filhos. Mas criei dois meninos como meus filhos. Os dois são malucos. Não sei porque, eu os criei tão bem.














Um comentário: