2 de fevereiro de 2010

Nove anos de saudades

(o post é grande, porém emocionante, tenho certeza que não se arrependerão de ler)

É, foi em dois de fevereiro de 2001 que uma batalha chegou ao fim. E nós perdemos.
Foi quando vovó Dalma, mãe de mamãe, foi embora. Hoje em dia vejo isso melhor, afinal todos nós vamos embora um dia mesmo. Mas eu me pego pensando como seria se ela estivesse aqui até hoje. As coisas que a gente poderia ter feito junta. Queria que vovó tivesse me visto crescer, afinal, eu só tinha 8 anos quando ela partiu. Porém acho que ela está me vendo hoje ainda.

Vovó foi de certa forma, uma lutadora. E não é só o que eu acho, é o que praticamente todo mundo acha. Ela foi criada na roça, meio que "longe da civilização". Meu bisavô era um grande fazendeiro e tudo mais, mas desprezava que suas filhas levassem os estudos a sério. Vovó fazia o dever de casa às escondidas e, no que hoje seria a terceira série do ensino fundamental, parou de estudar. Para meu bisavô, "para uma mulher bastava saber ler", o importante era cozinhar, lavar, passar, bordar, agradar ao marido.

Bem, vovó casou e teve três filhos. Tia Giovana, mamãe e Tio Sandinho. Bem, pouco tempo depois vovó se divorciou. Isso foi no final da década de 70. Vocês têm noção do quanto era difícil se divorciar naquela época? As pessoas tinham o maior preconceito, cara.
Bem, a vovó não tinha nenhuma profissão, afinal, meu bisavô não deixou que ela estudasse, lembram? Vovó teve que correr atrás de fazer faxinas para sustentar os três filhos pequenos. E o meu avô, pai de mamãe? Bem, ele fez questão de sair do emprego, pedir demissão só para não ter que pagar nenhuma pensão para os filhos. 
Mas a vovó foi uma ótima mãe para mamãe e meus tios. Ela lutou muito, trabalhou demais, não dormia. Ela fez de tudo pelos seus filhos. Fez questão de que todos eles terminassem os estudos. Vovó casou de novo, e pouco depois de eu nascer ficou viúva. 

Lembro de quando mamãe descobriu que vovó estava doente. Eu tinha sete anos, e meu irmão dois. Mamãe deixou Patrícia, uma das melhores amigas dela, cuidando da gente, enquanto ela acompanhava uma visita da vovó ao médico. Ficamos tomando banho de piscina esperando mamãe chegar. Mamãe estava demorando e nós nos secamos e fomos ver televisão. 
 Ouvi mamãe chegar em casa, pisando firme e forte com o salto, pela porta dos fundos. Mamãe se apoiou na mesinha do telefone que tinha no corredor e começou a chorar descontroladamente. Eu tentei ir atrás dela, mas Patrícia me segurou e foi falar com mamãe. Eu não conseguia entender nada. Não fazia sentido pra mim, eu só tinha sete anos.

O câncer pra mim não parecia ser tão ruim quanto realmente era. Eu tinha certeza que vovó ia melhorar. Quando a gente é criança, essas coisas não parecem tão sérias. Os médicos já não tinham mais qualquer esperança. Eles diziam que não poderia ser feita nenhuma cirurgia, o câncer de cólo de útero de vovó já estava em estágio avançado. O máximo que eles poderiam fazer era tentar prolongar a vida dela em mais um ano. Vovó viveu mais catorze meses.

Mamãe e meus tios acharam melhor dizer pra vovó que ela estava com outra doença menos grave. Eles acreditavam que, se vovó soubesse que já se encontrava em estágio terminal poderia fazer algo para tirar a própria vida. Vieram as dificuldades.

Vovó começou os tratamentos. Durante a radioterapia, ela tinha que ir todos os dias, de segunda a sexta, na Cruz Vermelha lá no Rio, fazer uma sessão de dois minutos, de 17:52 às 17:54. A única pessoa que poderia levar vovó era mamãe. Tia Eliane, uma amiga de mamãe, me buscava na escola (eu estudava à tarde), e me levava para a casa dela até mamãe chegar para me buscar. Nessa época papai trabalhava em Duque de Caxias (que é MUITO longe de Niterói), e só chegava lá pras nove da noite. Mamãe, ao levar vovó, ia com meu irmão ainda com dois anos, no colo. Na volta, mamãe tinha que lutar nos ônibus lotados, para que alguém desse um lugar para vovó, pois a viagem era muito longa e cansativa para ela aguentar de pé.

Vovó não fez quimioterapia, agora era a branquiterapia. A branquiterapia não era tão cansativa quanto a radioterapia, era semanal.Por isso, mamãe e meus tios poderiam se revezar para levá-la.

Vieram as mudanças. Vovó saiu da casa em que morava desde seu segundo casamento, para um sobrado alugado em frente a casa de tia Giovana. Depois, quando a coisa piorou, vovó se mudou para a minha casa. Como morávamos em uma casa dois quartos, eu ficava em um com papai e Teco(meu irmão), e mamãe passava as noites com a vovó no outro. Depois, a minha bisavó Pomposa, mãe da vovó Dalma, veio pra nossa casa também.

Algumas semanas antes de partir, vovó pediu que mamãe e meus tios distribuíssem os pertences dela entre si. A princípio, mamãe, tia Giovana e Tio Sandinho não o fizeram. Mas vovó os chateou e na quarta-feira eles correram atrás de um caminhão e mudanças para transportar os móveis e eletrodomésticos dela. 

Na sexta-feira, dois de fevereiro, todos foram para Cachoeiras de Macacu, onde vovó morava, buscar tudo. Eles passaram o dia fora. Só quem permaneceu em casa fomos eu, vovó e tia Simone, a esposa do meu tio Sandinho. Vovó tomou muito suco de acerola nesse dia. Ela adorava suco de acerola. Por volta das cinco da tarde eles chegaram com os móveis. Algumas coisas eles deixaram na casa de tia Giovana, em Cachoeiras, e outras eles levariam pra casa de tio Sandinho, em Maricá e aqui em casa.

Mamãe foi no quarto mostrar a vovó uma das cadeiras e uma almofada do sofá. Vovó apenas disse: "Agora acho que posso morrer em paz.". Mamãe rebateu: "Deixa de besteira, mãe. A senhora não vai morrer nem tão cedo."
 Vovó quis ficar sozinha no quarto e todos nós fomos para o quintal descarregar o caminhão. Eu senti uma vontade louca de ver vovó. Voltei para o quarto e fiquei ao lado dela.
"Tudo bem, vó?" eu perguntei. Ela disse que estava sentindo-se desconfortável, mas que eu não deveria avisar a minha mãe. Mas eu tinha oito anos. E até hoje, com 17, faria o mesmo. Fui em disparada avisar a mamãe. 

Mamãe, papai e tio Sandinho foram buscá-la para colocar dentro do carro e levar para o hospital. Todos os adultos já sabiam que ela poderia não voltar. Quando ela entrou na tauner no rio Sandinho, ficou desacordada. Tia Simone foi com a gente comprar Pepsi no trailer que tinha na minha rua, enquanto eles tentavam reanimá-la. Meses depois, Bruno, meu primo, me contou que foi melhor eu ter ido com a tia Simone. Tio Sandinho deu uns socos no coração dela para acordá-la. Ou algo assim.

Na volta pra casa, ficamos esperando eles voltarem do hospital. Eu e Bruno fomos assistir o último capítulo de Laços de Família. Vovó assistia Laços de Família e dizia que tinha pena da garota que tinha câncer. Será que vovó realmente não sabia que ela própria tinha câncer? Ou ela que fingia não saber para evistar discutir com a gente? Na novela, no último capítulo, a Camila(Carolina Dieckman), vencia a doença. Com vovó foi diferente.


Fomos para a varanda esperá-los. Minha bisavó, a mãe da vovó Dalma, estava inquieta. Quase meia noite, nós os vimos chegar. A casa era no alto e dava vista para a rua. Quando vimos que estavam sem a vovó, minha bisa Pomposa começou a puxar os próprios cabelos e bater com a cabeça na parede. Todos começaram a chorar. Eu não entendia nada. Nada mesmo. Só depois de uns cinco minutos que entendi que vovó tinha ido embora. Eu nem chorei. Nem fiquei triste. Procurei conjuntinho preto no armário porque eu achei que seria elegante usar preto no velório, no dia seguinte. Mamãe pegou o telefone para avisar aos amigos e parentes sobre o enterro. Fui dormir.

No dia seguinte, a gente foi pro velório. Minha mãe não deixou eu usar meu conjuntinho preto, me falou pra usar uma blusa rosa com short jeans. Vi vovó no caixão. Eu achava que ela ia acordar, que nem nas pegadinhas do Silvio Santos. Ela ia acordar daquele caixão, e as pessoas iam parar de chorar. Tio Sandinho estava desesperado. Beijava o pálido da vovó a todo momento. Minha bisa estava em choque. mamãe estava abalada. Tia Giovana desmaiou. Eu só entendi que a vovó tinha morrido quando fecharam o caixão.

Eu não aceitava que fechassem o caixão. Como eles poderiam fazer isso? Ela ia acordar, só estava dormindo. Eu comecei a gritar. Eles não podiam enterrá-la. Ela ia voltar a viver. Ela ia acordar e a gente ia fazer uma festa de comemoração e todo mundo ia usar uma roupa branca. Mas eles queriam trancar ela naquele caixão de madeira. 
Chorei loucamente, porque foi só aí que eu entendi o que aqueles catorze meses de sofrimento significavam. Alguém me abraçou forte, porque eu quis me jogar em cima do caixão para que não o fechassem. Não lembro direito quem o fez. Mas acho que foi Tia Nenete, prima da sogra da tia Giovana.  Eu acho, não tenho certeza. Ela falou no meu ouvido: "Ela está melhor agora." Mas eu não queria saber. Quando alguém iria acreditar que a vovó iria acordar? Eu disse: "Ela vai acordar, ela vai."

Fomos para o sepultamento. Depois a gente voltou pra casa.

Mas a vovó está comigo todo dia. Eu me lembro todos os dias das balas de caramelo que ela trazia pra mim quando vinha me visitar. Me lembro de um gato de porcelana onde ela colocava bombom pra gente comer à tarde. E o apelido do meu irmão(Teco), foi ela que deu. Eu não consigo chamar Teco de Marco Antonio (que é o nome dele). 
Vovó deixou o conjunto de mesa com seis cadeiras dela pra mim. Ela dizia que meus filhos iam jantar ali. Bem, hoje em dia, eu tomo café, almoço, janto e estudo na mesa.

Tudo isso poderia ter sido evitado se a vovó tivesse ido ao médico fazer o papanicolau com regularidade. Mas ela não ia. Por isso eu deixo um recado para todas as mulheres ( e homens também):

VÁ AO MÉDICO REGULARMENTE. FAÇA OS EXAMES DE ROTINA. CUIDAR DE VOCÊ, É CUIDAR DA SUA FAMÍLIA.

beeijos, e, se você me acompanhou até aqui, obrigada pela paciência..

7 comentários:

  1. Não tenho palavras para expressar o que sinto nesse momento.
    Vivo o que você viveu.
    Beijos

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  2. Uau, que história! Acompanhei tudinho até aqui. Fico triste em saber que passarm por tanto, é muito ruim ter alguém doente na família.

    Em questão ao velório, senti o mesmo que vc quando minha vó se foi. Era como se vc descrevesse o que tb senti. A idéia de que ia passar, que não era real... A coisa de não chorar e entrar em desespero a fecharem o caixão... Igualzinho. Eu só me contive mais, pois já tinha 12 anos e vi todos a minha volta desabarem, inclusive papai que nunca chora. Ele cantava a música preferida dela, perdia a voz, chorava, chorava... Foi muito triste =/

    Espero que vc e toda sua família esteja bem agora. Tia Luciana é um amor de pessoa e fico feliz em saber um pouquinho mais da história de vcs. São pessoas muito queridas, que guardo com muito carinho em meu coração.

    Nossas vovós estão bem, sei que estão.

    Grande beijo, Luma!

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  3. Luma, muito obrigada pelo apoio no Aos 20!

    Grande beijo
    ;*

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  4. Caramba. Esse foi emocionante! E acompanhei, vivi algo bem parecido há 3 anos e meio, e to vivendo de novo...
    mas cara, faz parte da vida, o melhor de tudo é não perder a fé e nem a consciência de que foi feliz ! :D

    beijo Lumita (:

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  5. Como não acompanhar até o final? Passou um filme na minha cabeça, porque perdi meu pai com 5 anos e o que sentiu ao ver sua avó no caixão, foi o mesmo que senti ao ver meu pai, só que quando fecharam e no sepultamente, eu nao estava presente. Acharam melhor que as crianças não presenciassem. Também vejo tudo com outros olhos e fico imaginando se não tivesse acontecido e se estivesse acontecendo agora. Acho que Deus nos dá força na hora e medida certas! Hoje, preservo mais o carinho pelas pessoas que amo. Não tenho vergonha de dizer que amo ou mesmo cobrar carinho. Temos que aproveitar e viver os instantes!
    O que mais me chamou a atenção foi como você se lembra dos detalhes, da pepsi, do suco de acerola...sua memória é bem viva! Parabéns pelo texto tão rico! Beijus,

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  6. Luminha, deletei dois comentários que foram postados iguais ao que já tinha comentado. Sem querer acho que cliquei 3x para enviar comentário (rs*)
    Vou ficar ausente da blogosfera por uns dias, portanto, não estranhe se sumir daqui uns dias! + Beijus,

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  7. Que emocionante história, Luma. Nunca perdi alguém assim, mas imagino como deve ser difícil. Parabéns pela força. Beijos!

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2 de fevereiro de 2010

Nove anos de saudades

(o post é grande, porém emocionante, tenho certeza que não se arrependerão de ler)

É, foi em dois de fevereiro de 2001 que uma batalha chegou ao fim. E nós perdemos.
Foi quando vovó Dalma, mãe de mamãe, foi embora. Hoje em dia vejo isso melhor, afinal todos nós vamos embora um dia mesmo. Mas eu me pego pensando como seria se ela estivesse aqui até hoje. As coisas que a gente poderia ter feito junta. Queria que vovó tivesse me visto crescer, afinal, eu só tinha 8 anos quando ela partiu. Porém acho que ela está me vendo hoje ainda.

Vovó foi de certa forma, uma lutadora. E não é só o que eu acho, é o que praticamente todo mundo acha. Ela foi criada na roça, meio que "longe da civilização". Meu bisavô era um grande fazendeiro e tudo mais, mas desprezava que suas filhas levassem os estudos a sério. Vovó fazia o dever de casa às escondidas e, no que hoje seria a terceira série do ensino fundamental, parou de estudar. Para meu bisavô, "para uma mulher bastava saber ler", o importante era cozinhar, lavar, passar, bordar, agradar ao marido.

Bem, vovó casou e teve três filhos. Tia Giovana, mamãe e Tio Sandinho. Bem, pouco tempo depois vovó se divorciou. Isso foi no final da década de 70. Vocês têm noção do quanto era difícil se divorciar naquela época? As pessoas tinham o maior preconceito, cara.
Bem, a vovó não tinha nenhuma profissão, afinal, meu bisavô não deixou que ela estudasse, lembram? Vovó teve que correr atrás de fazer faxinas para sustentar os três filhos pequenos. E o meu avô, pai de mamãe? Bem, ele fez questão de sair do emprego, pedir demissão só para não ter que pagar nenhuma pensão para os filhos. 
Mas a vovó foi uma ótima mãe para mamãe e meus tios. Ela lutou muito, trabalhou demais, não dormia. Ela fez de tudo pelos seus filhos. Fez questão de que todos eles terminassem os estudos. Vovó casou de novo, e pouco depois de eu nascer ficou viúva. 

Lembro de quando mamãe descobriu que vovó estava doente. Eu tinha sete anos, e meu irmão dois. Mamãe deixou Patrícia, uma das melhores amigas dela, cuidando da gente, enquanto ela acompanhava uma visita da vovó ao médico. Ficamos tomando banho de piscina esperando mamãe chegar. Mamãe estava demorando e nós nos secamos e fomos ver televisão. 
 Ouvi mamãe chegar em casa, pisando firme e forte com o salto, pela porta dos fundos. Mamãe se apoiou na mesinha do telefone que tinha no corredor e começou a chorar descontroladamente. Eu tentei ir atrás dela, mas Patrícia me segurou e foi falar com mamãe. Eu não conseguia entender nada. Não fazia sentido pra mim, eu só tinha sete anos.

O câncer pra mim não parecia ser tão ruim quanto realmente era. Eu tinha certeza que vovó ia melhorar. Quando a gente é criança, essas coisas não parecem tão sérias. Os médicos já não tinham mais qualquer esperança. Eles diziam que não poderia ser feita nenhuma cirurgia, o câncer de cólo de útero de vovó já estava em estágio avançado. O máximo que eles poderiam fazer era tentar prolongar a vida dela em mais um ano. Vovó viveu mais catorze meses.

Mamãe e meus tios acharam melhor dizer pra vovó que ela estava com outra doença menos grave. Eles acreditavam que, se vovó soubesse que já se encontrava em estágio terminal poderia fazer algo para tirar a própria vida. Vieram as dificuldades.

Vovó começou os tratamentos. Durante a radioterapia, ela tinha que ir todos os dias, de segunda a sexta, na Cruz Vermelha lá no Rio, fazer uma sessão de dois minutos, de 17:52 às 17:54. A única pessoa que poderia levar vovó era mamãe. Tia Eliane, uma amiga de mamãe, me buscava na escola (eu estudava à tarde), e me levava para a casa dela até mamãe chegar para me buscar. Nessa época papai trabalhava em Duque de Caxias (que é MUITO longe de Niterói), e só chegava lá pras nove da noite. Mamãe, ao levar vovó, ia com meu irmão ainda com dois anos, no colo. Na volta, mamãe tinha que lutar nos ônibus lotados, para que alguém desse um lugar para vovó, pois a viagem era muito longa e cansativa para ela aguentar de pé.

Vovó não fez quimioterapia, agora era a branquiterapia. A branquiterapia não era tão cansativa quanto a radioterapia, era semanal.Por isso, mamãe e meus tios poderiam se revezar para levá-la.

Vieram as mudanças. Vovó saiu da casa em que morava desde seu segundo casamento, para um sobrado alugado em frente a casa de tia Giovana. Depois, quando a coisa piorou, vovó se mudou para a minha casa. Como morávamos em uma casa dois quartos, eu ficava em um com papai e Teco(meu irmão), e mamãe passava as noites com a vovó no outro. Depois, a minha bisavó Pomposa, mãe da vovó Dalma, veio pra nossa casa também.

Algumas semanas antes de partir, vovó pediu que mamãe e meus tios distribuíssem os pertences dela entre si. A princípio, mamãe, tia Giovana e Tio Sandinho não o fizeram. Mas vovó os chateou e na quarta-feira eles correram atrás de um caminhão e mudanças para transportar os móveis e eletrodomésticos dela. 

Na sexta-feira, dois de fevereiro, todos foram para Cachoeiras de Macacu, onde vovó morava, buscar tudo. Eles passaram o dia fora. Só quem permaneceu em casa fomos eu, vovó e tia Simone, a esposa do meu tio Sandinho. Vovó tomou muito suco de acerola nesse dia. Ela adorava suco de acerola. Por volta das cinco da tarde eles chegaram com os móveis. Algumas coisas eles deixaram na casa de tia Giovana, em Cachoeiras, e outras eles levariam pra casa de tio Sandinho, em Maricá e aqui em casa.

Mamãe foi no quarto mostrar a vovó uma das cadeiras e uma almofada do sofá. Vovó apenas disse: "Agora acho que posso morrer em paz.". Mamãe rebateu: "Deixa de besteira, mãe. A senhora não vai morrer nem tão cedo."
 Vovó quis ficar sozinha no quarto e todos nós fomos para o quintal descarregar o caminhão. Eu senti uma vontade louca de ver vovó. Voltei para o quarto e fiquei ao lado dela.
"Tudo bem, vó?" eu perguntei. Ela disse que estava sentindo-se desconfortável, mas que eu não deveria avisar a minha mãe. Mas eu tinha oito anos. E até hoje, com 17, faria o mesmo. Fui em disparada avisar a mamãe. 

Mamãe, papai e tio Sandinho foram buscá-la para colocar dentro do carro e levar para o hospital. Todos os adultos já sabiam que ela poderia não voltar. Quando ela entrou na tauner no rio Sandinho, ficou desacordada. Tia Simone foi com a gente comprar Pepsi no trailer que tinha na minha rua, enquanto eles tentavam reanimá-la. Meses depois, Bruno, meu primo, me contou que foi melhor eu ter ido com a tia Simone. Tio Sandinho deu uns socos no coração dela para acordá-la. Ou algo assim.

Na volta pra casa, ficamos esperando eles voltarem do hospital. Eu e Bruno fomos assistir o último capítulo de Laços de Família. Vovó assistia Laços de Família e dizia que tinha pena da garota que tinha câncer. Será que vovó realmente não sabia que ela própria tinha câncer? Ou ela que fingia não saber para evistar discutir com a gente? Na novela, no último capítulo, a Camila(Carolina Dieckman), vencia a doença. Com vovó foi diferente.


Fomos para a varanda esperá-los. Minha bisavó, a mãe da vovó Dalma, estava inquieta. Quase meia noite, nós os vimos chegar. A casa era no alto e dava vista para a rua. Quando vimos que estavam sem a vovó, minha bisa Pomposa começou a puxar os próprios cabelos e bater com a cabeça na parede. Todos começaram a chorar. Eu não entendia nada. Nada mesmo. Só depois de uns cinco minutos que entendi que vovó tinha ido embora. Eu nem chorei. Nem fiquei triste. Procurei conjuntinho preto no armário porque eu achei que seria elegante usar preto no velório, no dia seguinte. Mamãe pegou o telefone para avisar aos amigos e parentes sobre o enterro. Fui dormir.

No dia seguinte, a gente foi pro velório. Minha mãe não deixou eu usar meu conjuntinho preto, me falou pra usar uma blusa rosa com short jeans. Vi vovó no caixão. Eu achava que ela ia acordar, que nem nas pegadinhas do Silvio Santos. Ela ia acordar daquele caixão, e as pessoas iam parar de chorar. Tio Sandinho estava desesperado. Beijava o pálido da vovó a todo momento. Minha bisa estava em choque. mamãe estava abalada. Tia Giovana desmaiou. Eu só entendi que a vovó tinha morrido quando fecharam o caixão.

Eu não aceitava que fechassem o caixão. Como eles poderiam fazer isso? Ela ia acordar, só estava dormindo. Eu comecei a gritar. Eles não podiam enterrá-la. Ela ia voltar a viver. Ela ia acordar e a gente ia fazer uma festa de comemoração e todo mundo ia usar uma roupa branca. Mas eles queriam trancar ela naquele caixão de madeira. 
Chorei loucamente, porque foi só aí que eu entendi o que aqueles catorze meses de sofrimento significavam. Alguém me abraçou forte, porque eu quis me jogar em cima do caixão para que não o fechassem. Não lembro direito quem o fez. Mas acho que foi Tia Nenete, prima da sogra da tia Giovana.  Eu acho, não tenho certeza. Ela falou no meu ouvido: "Ela está melhor agora." Mas eu não queria saber. Quando alguém iria acreditar que a vovó iria acordar? Eu disse: "Ela vai acordar, ela vai."

Fomos para o sepultamento. Depois a gente voltou pra casa.

Mas a vovó está comigo todo dia. Eu me lembro todos os dias das balas de caramelo que ela trazia pra mim quando vinha me visitar. Me lembro de um gato de porcelana onde ela colocava bombom pra gente comer à tarde. E o apelido do meu irmão(Teco), foi ela que deu. Eu não consigo chamar Teco de Marco Antonio (que é o nome dele). 
Vovó deixou o conjunto de mesa com seis cadeiras dela pra mim. Ela dizia que meus filhos iam jantar ali. Bem, hoje em dia, eu tomo café, almoço, janto e estudo na mesa.

Tudo isso poderia ter sido evitado se a vovó tivesse ido ao médico fazer o papanicolau com regularidade. Mas ela não ia. Por isso eu deixo um recado para todas as mulheres ( e homens também):

VÁ AO MÉDICO REGULARMENTE. FAÇA OS EXAMES DE ROTINA. CUIDAR DE VOCÊ, É CUIDAR DA SUA FAMÍLIA.

beeijos, e, se você me acompanhou até aqui, obrigada pela paciência..

7 comentários:

  1. Não tenho palavras para expressar o que sinto nesse momento.
    Vivo o que você viveu.
    Beijos

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  2. Uau, que história! Acompanhei tudinho até aqui. Fico triste em saber que passarm por tanto, é muito ruim ter alguém doente na família.

    Em questão ao velório, senti o mesmo que vc quando minha vó se foi. Era como se vc descrevesse o que tb senti. A idéia de que ia passar, que não era real... A coisa de não chorar e entrar em desespero a fecharem o caixão... Igualzinho. Eu só me contive mais, pois já tinha 12 anos e vi todos a minha volta desabarem, inclusive papai que nunca chora. Ele cantava a música preferida dela, perdia a voz, chorava, chorava... Foi muito triste =/

    Espero que vc e toda sua família esteja bem agora. Tia Luciana é um amor de pessoa e fico feliz em saber um pouquinho mais da história de vcs. São pessoas muito queridas, que guardo com muito carinho em meu coração.

    Nossas vovós estão bem, sei que estão.

    Grande beijo, Luma!

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  3. Luma, muito obrigada pelo apoio no Aos 20!

    Grande beijo
    ;*

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  4. Caramba. Esse foi emocionante! E acompanhei, vivi algo bem parecido há 3 anos e meio, e to vivendo de novo...
    mas cara, faz parte da vida, o melhor de tudo é não perder a fé e nem a consciência de que foi feliz ! :D

    beijo Lumita (:

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  5. Como não acompanhar até o final? Passou um filme na minha cabeça, porque perdi meu pai com 5 anos e o que sentiu ao ver sua avó no caixão, foi o mesmo que senti ao ver meu pai, só que quando fecharam e no sepultamente, eu nao estava presente. Acharam melhor que as crianças não presenciassem. Também vejo tudo com outros olhos e fico imaginando se não tivesse acontecido e se estivesse acontecendo agora. Acho que Deus nos dá força na hora e medida certas! Hoje, preservo mais o carinho pelas pessoas que amo. Não tenho vergonha de dizer que amo ou mesmo cobrar carinho. Temos que aproveitar e viver os instantes!
    O que mais me chamou a atenção foi como você se lembra dos detalhes, da pepsi, do suco de acerola...sua memória é bem viva! Parabéns pelo texto tão rico! Beijus,

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  6. Luminha, deletei dois comentários que foram postados iguais ao que já tinha comentado. Sem querer acho que cliquei 3x para enviar comentário (rs*)
    Vou ficar ausente da blogosfera por uns dias, portanto, não estranhe se sumir daqui uns dias! + Beijus,

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  7. Que emocionante história, Luma. Nunca perdi alguém assim, mas imagino como deve ser difícil. Parabéns pela força. Beijos!

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